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20 agosto 2023

+COVID-19: nova variante, novos desafios?


Antonio Sousa-Uva

 

Algum tempo depois, eis uma nova subvariante da Ómicron do coronavírus SARS-CoV-2, a Éris, que já é dominante entre nós. 


Ainda que a Éris não pareça ter uma gravidade acrescida e a sua eclosão não tenha uma configuração "endémica", a vacinação no início do outono ainda fica mais justificada, principalmente para os grupos de risco já conhecidos, com particular ênfase para a idade elevada que abrangerá mais de um cidadão em cada quatro ou cinco. As mutações ocorridas parecem facilitar a sua contagiosidade.


O fim da pandemia, decidido pela OMS em maio passado, não deve esmorecer a atenção que devemos dar ao coronavírus como, de resto, já damos, por exemplo ao influenza e ao sincicial respiratório. Ser agente de Saúde Pública poderá ser agora vacinarmo-nos para nos proteger e para também proteger os outros. Pelo menos é isso que farei! 


23 dezembro 2021

+COVID-19: qualquer pandemia exige uma panresposta! Ao fim de 2 anos é isso que tem acontecido?


                                                                                                              Antonio Sousa-Uva 


Por cá a vigilância genómica realizada, também com recurso a algumas formas mais expeditas na rede laboratorial, já aponta para que mais de metade dos novos casos de infecção (ou doença) causada pelo SARS-CoV-2 possa ser causada pela nova variante.

 

Um ano depois do período perinatal de 2020 estamos mais rápidos a responder, apesar da prévia “explosão” do número de casos em alguns países, designadamente da Europa do Norte já indiciar uma nova onda pandémica e a nova variante ómicron, apesar das proibições feitas a viagens da África Austral, já estar presente na Europa já vai para cerca de 5 semanas. O tsunami mais recente no Reino Unido e em Espanha (tão próximos por ar ou por terra) veio determinar o que já se vislumbrava há semanas que por cá se passaria.

 

Hoje, 22 de dezembro, temos cerca de 9000 novos casos que, observada a curva pandémica, indiciam, sem ser necessário o recurso a complexos modelos matemáticos, que se vislumbra a possibilidade de, no mínimo, poder ocorrer a duplicação de casos diários nas duas ou três semanas que se avizinham que, grosseiramente irão, pelo menos até ao dia de Reis (que, recorde-se, usam coroa, etimologicamente do latim corona).

 

A Alemanha, por exemplo, reagiu bem mais precocemente, ainda na alvorada da eclosão da nova variante, estando a descer o número de casos há cerca de 2 ou 3 semanas depois de ter atingido o pico mais elevado de novos casos diários e da média de 7 dias. Todos se recordarão da veemência da resposta a essa onda, nem sempre bem compreendida, por parte da ex-Chanceler Angela Dorothea Merkel, apesar da então iminente cessação das funções políticas.

 

Há cerca de 1 ano que o Director-Geral da OMS, o Dr.  Tedros Adhanom Ghebreyesus, etíope e primeiro Director-Geral Africano da OMS  (a terminar o seu mandato de 5 anos na próxima primavera/verão) e o próprio Secretário-Geral das Nações Unidas, clamam, debalde, pela necessidade de uma panresposta à pandemia, centrando o seu discurso na necessidade de taxas de vacinação mais equilibradas em toda a população mundial, por oposição à iniquidade actual, para se poder obter um maior sucesso no combate à pandemia. Na Etiópia, por exemplo, a vacinação incompleta (sem rappel) abrange menos de 10% (cerca de 7%) da população e por cá estamos nos 90%.

 

De facto, a actual resposta mundial à pandemia permite ainda que em muitas zonas geográficas o vírus circule naturalmente nas populações e que dessa forma a replicação vá gerando, com mais facilidade, a possibilidade de surgirem novas variantes que não se esgotarão, por certo, na ómicron no processo de “adaptação” da partícula viral ao hospedeiro.

 

Será assim tão complicado compreender que problemas globais só se resolvem com respostas globais? É que com a actual mobilidade, a imunidade de grupo é da população mundial e não da população de cada país, e mais ainda com um vírus-camaleão como este corona.

 

Entretanto na África do Sul há cerca de 1 semana que se assiste à diminuição do número de novos casos.


Nota: Publicado inicialmente em Healthnews.

 

11 dezembro 2021

+COVID-19 e vacinação das crianças mais pequenas: Politic e Policy amalgamadas? Ou nem tudo o que parece é?


                                                                                                      Antonio Sousa-Uva


Muito se tem escrito e falado sobre a vacinação das crianças dos 5 aos 11 anos! E julgo que “a procissão ainda irá no adro” …

No essencial, a “avaliação de risco-benefício é favorável à vacinação” de acordo com a decisão. Restará “apenas” saber, que risco e que benefício … mas essas são “contas de outro rosário”.

A questão, agora em reflexão é, de novo, algo transversal à resposta ao “tsunami” pandémico: a possível excessiva “promiscuidade” entre as estratégias de acção em Saúde Pública (policy) e a decisão política das medidas a implementar (politic).

O patamar técnico-científico, caracterizado pelo rigor (ou pelo menos pela preocupação desse rigor), estará presente?

Também a isenção e a imparcialidade farão, com proporcionalidade, parte da equação?

Serão totalmente compatíveis os patamares da criação de conhecimento e a resposta política às populações, com crenças, ideologias e busca de compromissos?

Não seria preferível (e mesmo desejável) que as abordagens fossem separadas, ainda que a decisão política fosse sempre dominante?

Por exemplo, no Reino Unido, não são sobreponíveis os Órgãos Estatais, as Comissões de Consultoria (Advisory Committees) e as Comissões de Consultoria de Peritos (Expert Advisory Committees) e essa evolução demorou décadas a ser feita. Porque será que isso terá acontecido?

Entre nós, por exemplo, a Direcção-Geral da Saúde é, obviamente, um órgão estatal e o Conselho Nacional de Saúde Pública (CNSP) um Advisory Committee e as reuniões do Infarmed em que categoria se integram? Pretenderão ser uma reunião de um Expert Advisory Committee? Ou será, ainda que com quase dois anos, uma resposta ad hoc determinada pela emergência?

Deve-se recordar que o CNSP é parte integrante do Sistema de Vigilância em Saúde Pública, sendo o órgão consultivo do Governo no âmbito da prevenção e controlo das doenças transmissíveis, nomeadamente em epidemias. Apesar disso, e aparentemente com excepção da reunião de 11 de março de 2020 que, todos se recordarão, antecedeu a resposta à pandemia quanto às escolas, não tem reunido. Não se justificaria ser ouvido quanto à vacinação deste grupo etário?

Mais burocracia dirão alguns! Mas será então esse modelo organizativo adequado à resposta a surtos epidémicos de grande escala e pandemias? Estou um bocadinho confuso!


Nota: Publicado inicialmente na plataforma Healthnews

26 novembro 2021

+COVID-19: vacina obrigatória? Onde chegámos!

                                                                                                                 Antonio Sousa-Uva


Com alguns exemplos na Europa aparece, como de uma erupção se tratasse (qual surto exantemático …), o tema “vacina obrigatória”. Onde chegámos! Onde estarão os direitos, liberdades e garantias?

 

Vacina obrigatória? Num país que há mais de meio século tem uma adesão notável à vacinação e que tal facto é totalmente revelador de quanto se acredita na imunoterapia específica?

 

O objectivo será que os cidadãos deixem de aderir de forma maciça à vacinação?

 

Convirá recordar que praticamente 99% da população Portuguesa elegível se vacinou contra a doença causada pelo SARS-CoV-2. Tais taxas de vacinação, colocam-nos mesmo na dianteira da taxa de vacinação a nível mundial.

 

Será outra pandemia, essa do medo, que está na origem de tal movimento?


Em alguns países já tinha emergido a obrigatoriedade da vacinação para grupos específicos, como é o exemplo dos profissionais de saúde. Depressa, com um novo surto, se passa para a sua generalização à população geral. Se já discordava vincadamente com a obrigatoriedade em grupos específicos, a generalização à população geral desencadeia em mim um turbilhão de preocupações, tanto como cidadão como como médico ou, se se preferir, profissional de saúde.

 

Mas haverá alguém mais interessado na sua saúde do que o próprio? Será que a vacinação obrigatória é defendida por quem está mais preocupado com a sua saúde (em termos probabilísticos de uma emergência pandémica) do que com a saúde de quem seria “obrigado” a vacinar-se?

 

Que estranha perspectiva de Saúde Pública!

 

Não seria desejável sugerir que devemos aumentar a literacia em saúde de forma a, tendencialmente, atingirmos os 100% de aderentes à vacinação?

 

Como médico do trabalho confrontei-me, no passado, com algo semelhante. Alguns trabalhadores, numa das empresas em que trabalhei, recusavam realizar o exame periódico de Medicina do Trabalho. Fará algum sentido uma obrigação de realização desse exame?

 

Nos trabalhadores a meu cargo, apenas por razões do enquadramento legal aplicável, optei por solicitar uma declaração escrita de recusa do exame. Mesmo assim, em muito pequeno número, alguns recusaram declarar que declaravam a recusa. Optei então por  assinalar esse facto na respectiva ficha clínica, por iguais razões.

 

Sempre interpretei como incapacidade (ou falência) minha a existência de recusas em realizar o exame periódico que, para qualquer efeito, é sempre realizado para a protecção (e promoção) da saúde do trabalhador “negacionista”. Tal determinou acções concretas nesses trabalhadores que, em mais de metade dessas recusas, levaram a que fossem revertidas, com uma maior literacia sobre esses exames periódicos. Que tal escolher um caminho similar na vacinação contra a COVID-19?


NOTA: Publicado inicialmente na plataforma Healthnews.

08 setembro 2021

+COVID-19: a tradicional adesão dos portugueses à vacinação

 

 Antonio Sousa-Uva


Independentemente da nossa posição relativa em matéria de taxa de vacinação a adesão à vacina contra a COVID-19 é, em Portugal e como de resto já acontecia com outras imunoterapias específicas, excepcional. As referências feitas a tal facto vão variando muito em função da forma como se olha para os números. 


Desde logo, o olhar mais frequente é feito para a totalidade da população, o que tem alguma lógica já que a referenciação a tal evocação está, quase sempre, associada ao conceito de "imunidade de grupo".


Mas, verdadeiramente, se queremos avaliar a adesão à vacinação o denominador deveria ser a população elegível e não a população total. Desde logo ficam de fora cidadãos com contra-indicação para a vacina e todos os que tenham até 11 anos de idade (inclusive). Números redondos, a população elegível será um pouco inferior a 89% da população residente em Portugal o que nos indica que com algum grau de imunidade estaremos seguramente bem instalados no percentil noventa e com a vacinação completa na "alvorada" desse percentil.


De facto teremos mais de 86% da população total com alguma imunidade já que não contabilizamos quem já teve a doença nos grupos etários não elegíveis, assim como hipovalorizamos quem perdeu a imunidade. Todavia, atrever-me-ia a dizer que estaremos muito perto dos 90% com boa imunidade e de 98% com alguma imunidade na população elegível o que faz pressupor que no final do mês de setembro apenas 1 a 3% da população elegível não tenha sido vacinada. Tal significará que 86 a 88% da população residente (legal) estará, até ao final do mês, com defesas para, pelo menos, a doença grave.


Com tal realidade não seria urgente redefinir, para efeitos de gestão de risco, as medidas de Saúde Pública a implementar em matéria de prevenção e de mitigação? 

Deverão essas medidas ser iguais para vacinados ou não vacinados?

Serão as definições de alto e baixo risco adequadas apenas com base em critérios "externos"? 


Apesar de tudo, 1 a 3% da população elegível são cerca de 100.000 a 300.000 pessoas, algumas das quais terão razões respeitáveis para não terem sido vacinadas, o que corresponderá, em valor relativo, a pouca população, mas em valor absoluto ao equivalente a alguns estádios de futebol cheios.


Claro que emerge a perspectiva autoritária (e punitiva) da obrigação e não do dever da vacinação se não na totalidade da população, pelo menos nas situações de maior risco, como são as situações de risco específico como os prestadores de cuidados por exemplo em unidades de saúde ou residências para idosos. Mas rapidamente isso estende-se a muitas outras situações e organizações, sejam elas empresariais ou de outra natureza. Já existem alguns exemplos disso em alguns países.

 

Mas, não seria preferível identificar esses cidadãos e compreender melhor as razões dessa opção?

 

Na minha experiência como médico do trabalho também há recusas à vigilância médica periódica e há quem também ache que o melhor caminho é obrigar (tal como na situação anterior, até com abordagens normativas ou legais). Na minha experiência, mais de metade das recusas, com esclarecimento especializado, são completamente revertidas.


A vacinação deverá ser um dever ou uma obrigação? 

Estaremos a pensar mais na nossa saúde do que na saúde do outro? Numa pandemia isso fará sentido, quando, por exemplo, apenas um dígito (muito) magro de residentes em África estão vacinados?

Haverá alguém mais interessado na sua saúde do que o próprio? Acho que não!


Bibliografia

  • PORDATA. População residente, média anual: total e por grupo etário. Disponível em: https://www.pordata.pt/Portugal/Popula%C3%A7%C3%A3o+residente++m%C3%A9dia+anual+total+e+por+grupo+et%C3%A1rio-10 (consultado em 07/09/2021)  

Nota: Publicado inicialmente na plataforma Healthnews.

02 setembro 2021

+COVID-19. Vacinação: tal como antes se dizia que nove em cada dez estrelas usam Lux!

 

 António Sousa-Uva


Talvez ainda seja a influência dos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020, recentemente realizados, a perspectiva competitiva mundial da vacinação. A “competição” adensa-se e do bronze passámos a prata (tal como escrevi anteriormente) e esta semana ainda (ou para a próxima) teremos o tão almejado ouro (acesa competição com os Emirados Árabes Unidos …). De facto, não tardará muito para nove em cada dez portugueses terem alguma imunidade (incluindo a imunidade natural) contra o SARS-CoV-2 tal como, nos ano de 1960, a publicidade se referia ao sabonete Lux. Ainda bem que a vida começa a não ficar fácil para a partícula viral …

 

Porque será que atingimos tão proeminente lugar?

 

Sem qualquer desprimor pelo Vice-Almirante Henrique Gouveia e Melo e a sua vasta equipa de militares e excepcionais capacidades organizativas e de Logística, com indiscutível dedicação à causa, que outras (e, talvez, principais) razões estarão na origem de tal sucesso?

 

Antes de tudo a nossa qualidade de membros da União Europeia que nos colocou numa posição privilegiada de acesso à matéria-prima. Mas se assim é, porque razão estamos melhor que os outros dois dígitos de países?

 

Talvez a responsabilidade maior  seja dos portugueses que, há muito, têm elevadas taxas de adesão à vacinação (não só para esta vacina)!

 

Com a imunoterapia específica para a COVID-19 não foi diferente e julgo mesmo que o medo potenciou essa tradicional adesão. Depois também se deve aos quatro dígitos (gordos) de diversos técnicos de saúde e outros profissionais que se dedicaram a essa missão (ultra-rotineira e tecnicamente, julgo, pouco desafiante) que merecem uma referência indiscutível e fazem parte integrante desse sucesso.

 

Também a responsabilidade pelo modelo e pela execução muito devem à Administração Central e Local e a muitas outras forças vivas da sociedade civil que criaram condições para tal execução, para não falar na capacidade portuguesa invulgar de se mobilizar em situações de crise associada à, igualmente invulgar, capacidade dos portugueses em improvisar e se adaptar a novas situações.

 

O certo, certo, é que um pequeno país como o nosso mais uma vez consegue responder de forma notável a uma ameaça com uma elevada taxa de sucesso que constitui uma excelente resposta do exaurido e “descapitalizado” Serviço Nacional de Saúde que deveria mobilizar mais recursos não só para uma maior equidade na prestação de cuidados mas ainda para melhor organizar o seu sistema de cuidados de Saúde Pública que está muito para além da acessibilidade a médicos de família, a consultas ou a medicamentos.

 

Temo, no entanto, que passada a intempérie pandémica se volte a dedicar insuficiente atenção à prevenção primária e ao modelo salutogénico e se volte a “por as fichas todas” na resposta ao modelo patogénico. Ou será que aprendemos algo e que agora vai ser diferente?


Nota: Publicado inicialmente no blog Safemed.

18 agosto 2021

Vacinação COVID-19: em 16 de agosto de 2021 estamos no pódio (bronze)!


 

 António Sousa-Uva

 

A vacinação da população avança a bom ritmo e já passámos, seguramente, dos três em cada quatro com algum grau de imunidade, considerando também a imunidade natural. Talvez seja influência dos Jogos Olímpicos Tóquio 2020, recentemente realizados, esta perspectiva competitiva mundial da vacinação ... que, confesso, tenho grande dificuldade em entender.

 

De facto, tendo em conta os 10% de cidadãos que já contraíram a doença, alguns dos quais com rappel vacinal adicional, não andaremos longe de quatro em cada cinco com algum grau de imunidade. Quem se referiu copiosamente à imunidade de grupo (muitas vezes sem saber o que é o sistema imune ou tendo desse sistema uma imagem semelhante à PSP ou GNR do nosso corpo) ou a denominou “imunidade de rebanho” (sem ser brasileiro) está agora talvez perplexo ou, se vier das Ciências Exactas por exemplo, poderá achar que é mais uma falta de exatidão dos médicos (e outros profissionais de saúde). Mais uma!

 

Essa perspectiva não releva muita coisa e, por exemplo, outros dados da vacinação. Não revela, por exemplo, que menos de um em três dos seres humanos recebeu uma só dose da vacina e menos de um em quatro tem a vacinação completa. Se “fatiarmos” a distribuição de seres humanos por países constata-se que só cerca de um por cento desses seres estão vacinados em países menos abonados e em alguns deles dez vezes menos do que isso como é o exemplo da Tanzânia (Our World in Data, 2021). Uma espécie de outro Kilimanjaro que é difícil de alcançar.

 

Tal não será importante numa situação pandémica?

 

O que poderá estar na eclosão de novas estirpes (ou variantes)?

 

Os vírus terão uma qualquer discriminação ao infectar um rico ou um pobre?


Haverá dois humanismos (o rico e o pobre)?

 

A vacinação dos grupos etários mais jovens e o 3º rappel (ou, eventualmente, 2º na imunização com uma aplicação) mobilizam a opinião pública e regressam os “peritos” que peroram profusamente em quase todos os canais noticiosos e nas redes sociais. Apesar da minha amostra não ter representatividade, o tema Autárquicas será talvez menos abordado que a acesa “discussão” sobre aqueles temas.

 

Tal deverá corresponder à manutenção dos receios, ainda muito elevados, do SARS-CoV-2 que a sociedade mantém “de mãos dadas” com a desejada (e muitas vezes objectivada) “libertação” dos constrangimentos impostos pela pandemia, o que poderá parecer o seu contrário (ou mesmo o oposto).

 

Apesar de muito perto, estamos bem longe do que vivíamos há cerca de um ano (Sousa-Uva, Sousa-Uva e Serranheira, 2021). Talvez não seja má ideia um olhar mais pan também sobre a vacinação.

 

Publicado, inicialmente, em Healthnews.


Bibliografia


  • Sousa-Uva M, Sousa-Uva A, Serranheira F. Prevalence of Covid-19 in health professionals and occupational psychosocial risks. Rev Bras Med do Trab. 2021;19(1):73–81. Available from: /pmc/articles/PMC8100762//
  • Our World in Data. Coronavirus (COVID-19)Vaccinations. Disponível em: https://ourworldindata.org/covid-vaccinations (consultado em 18/08/2021).

05 agosto 2021

+COVID-19: quase o equivalente a metade da população portuguesa de óbitos por (ou com) SARS-CoV-2!

 

António de Sousa Uva


A variante delta já é totalmente hegemónica e a sua contagiosidade já foi equiparada à da varicela. Para quem viveu com filhos pequenos a época das doenças exantemáticas (e similares) muito frequentes e/ou fez clínica numa época em que a arte era uma das suas características dominantes essa contagiosidade é, talvez, ainda melhor percepcionada.

 

A maioria dos “treinadores de bancada”, mesmo oriundos do Ensino e Investigação, foram “a banhos”, mas tal não impede uma verdadeira “floresta” de opiniões sobre a vacinação dos mais jovens que teve um determinado veredicto da comissão técnica de especialistas nesse domínio. Regressa a evocação quase diária de decisões díspares em diferentes países (e até no nosso território nacional) que fundamenta muitas daquelas posições, sendo agora a DGS o “saco de areia” e a apreciação crítica da sua acção, no bem futebolês “de bestial a besta”, quase dominante. De novo a amálgama entre a politic e a policy que tem sido a regra nesta pandemia, neste caso mesclada ainda com aspectos técnico-científicos, qual Benfica-Sporting entre o sim e o não, mesmo no seio da classe médica, segundo parece.

 

Assim reage alguma da população portuguesa à actual situação pandémica com uma intervenção minimalista dos órgãos de governo também já maioritariamente “a banhos” depositando no Vice-Almirante (e a sua equipa quase sempre no Backoffice) e na vasta equipa de vacinadores não só os louros mas, sobretudo, a necessidade de cumprimento da missão.

 

Tudo leva a crer que os pólos se situam mais em aspectos individuais nuns casos e em perspectivas de base populacional noutros que, de resto, também se observam por esse mundo fora, Uma coisa é certa, a vacinação modifica significativamente a história natural da doença em cada indivíduo e também a sua transmissibilidade.

 

Exige-se, por isso, nesta silly season uma imensa dose de paciência e o reforço da determinação em dificultar ao máximo a transmissibilidade mas, contudo, não são a paciência nem a determinação que mais se parecem respirar neste verão de 2021. A pandemia não liga bem com caipirinhas e caipiroskas … e o relaxe das principais medidas de prevenção poderá renascer com a avidez da “libertação”.

 

Entretanto, pelo sim e pelo não, o turismo interno acelera e traz esperança `na retoma das actividades económicas que “amaciem” a crise que se avizinha, bem certa se o custo do dinheiro subir num país cada vez mais endividado na resposta à pandemia. É a busca do equilíbrio entre a Saúde e a Economia a que os políticos tanto gostam de se referir.

 

Nesta actual situação e com a lembrança do último ano e meio vem-me sempre à memória a douta frase de quem se referiu a esta emergência de Saúde Pública como “uma gripezinha” … Um visionário, por certo.

28 julho 2021

+COVID-19: já próximo de dois em três com imunidade induzida artificialmente e/ou naturalmente!

 

 

António de Sousa Uva

 

A vacinação da população continua a progredir e já estaremos com dois em cada três cidadãos com imunidade, considerando também a imunidade natural adquirida, e três em quatro com algum grau de imunidade. A variante delta (e a plus ou “premium”, para quem preferir) eclipsou todas as outras e estamos a atingir o início da descida da actual onda pandémica. Tal como estava previsto o perfil de consumo de cuidados hospitalares tem sido bem diverso da anterior onda do período periNatal, ainda que provavelmente atinjamos os quatro dígitos (muito magros) de internamentos e o seu aumento ainda vá permanecer por mais algumas (escassas) semanas.

 

O que concentra a atenção de todos actualmente é, essencialmente, a grelha de avaliação de risco e a vacinação dos jovens dos 12 aos 15 anos e esta semana teremos, por certo, novidades nesse domínio. A tal propósito existem muitas questões que determinam alguma reflexão, entre as quais emergem muitas interrogações, como por exemplo:

 

As grelhas (ou matrizes) de avaliação de risco devem apontar tendências que ajudem a tomar decisões de gestão de risco e as variáveis que as compõem, frequentemente, não são independentes. Não ter isso em conta poderá dificultar a qualidade desses indicadores?

 

As questões de natureza ética colocam-se, essencialmente, quando existem diversos “valores” em causa. Quais os valores que se devem sobrepor quando essa “conflitualidade” se instala?

 

Os direitos, liberdades e garantias individuais devem ser “sacrificados” em função de um qualquer objectivo comunitário?

 

Qual o melhor equilíbrio entre as questões da Economia e da Saúde?

 

Manter-se-á o baixo controlo fronteiriço português? O pico turístico deste tempo quente que importância tem no controlo da pandemia?

 

Entretanto, as escolas estão em férias grandes (o que é uma boa ajuda ao actual surto pandémico) e tudo leva a crer que até ao fim do verão a imunidade de grupo seja atingida (qualquer que seja esse valor já que, tradicionalmente, a adesão dos portugueses às vacinas é, há muito, das melhores do mundo). Isto num contexto de incerteza da ocorrência de mutações que os vírus vão sofrendo (e que por certo ainda sofrerão) e, mais objetivamente ainda, da somítica disponibilidade de doses de vacina sempre constrangida pela regra da entrega ser, sistematicamente, inferior ao acordado.

 

E o descanso (e agora as férias) dos profissionais de saúde? Não estarão já em suficiente exaustão profissional e emocional?

 

É bom recordar que o burnout (profissional) atinge, essencialmente, os trabalhadores mais dedicados ao seu trabalho e que nele colocam as mais elevadas expectativas.

 

Será urgente definir estratégias adequadas de fomento de um bom equilíbrio entre as exigências do trabalho e a saúde (e segurança) de quem trabalha?

 

Ou a opção é algo semelhante ao que aconteceu com o cavalo do inglês?

 

Oxalá o bom senso (e outra sensatez) seja o denominador comum da gestão de risco e o caminho pan-epi-en demia se faça sem sobressaltos e “populismos” desadequados à nossa actual fase pandémica.

 

Estou certo que tal acontecerá!   

16 julho 2021

+COVID-19: já próximo de três em cada quatro com alguma imunidade

Antonio Sousa-Uva

 

A vacinação da população avança a bom ritmo e não andaremos longe de três em cada quatro com algum grau de imunidade, considerando também a imunidade natural adquirida. As novas estirpes vão aparecendo e assim acontecerá se não não tivermos uma “panpolítica” de saúde para esta pandemia arriscando-nos a obter sucessivas imunidades de grupo para partículas virais que deixam de circular e dão lugar a novas variantes. Existe o risco do “egoísmo” de alguns deixar circular livremente a partícula viral em outras populações podendo emergir novas estirpes, actualmente já próximas dos dois dígitos, que podem regressar e “fintar” a imunidade adquirida (natural ou artificialmente).


Aparentemente e na actualidade, para a estirpe que se vai tornando dominante em Portugal, só aproximadamente dois em cada cinco terão imunidade mais eficaz o que faz brotar a actual nova vaga que não terá, por certo, a gravidade da anterior (perinatal e janeiro) uma vez que, ainda por cima, a imunidade é bem maior nos grupos mais vulneráveis.

Tal objectiva-se, de resto, nos diversos indicadores da evolução da pandemia em que o actual aumento de casos, consequência das propriedades da partícula viral circulante e do acréscimo de circulação e de comunicação de pessoas, não se acompanha de um maior número de óbitos e de grande pressão das unidades de prestação de cuidados de saúde (infelizmente o verdadeiro “gatilho” de respostas de políticas públicas mais “musculadas” como já antes referi em outro texto).

Os grupos etários dos vinte aos cinquenta anos (com inferior taxa de cobertura vacinal) que, quase não tendo manifestações clínicas da doença, não lhe atribui, muitas vezes, muita importância e ainda os grupos inferiores a dezoito anos tornam-se, agora, o alvo da partícula. Tal, associado ao aumento da transmissibilidade da actual variante estará, por certo, na origem da actual nova vaga, para já, em três ou quatro países da Europa.

Tal deve determinar, para além de estratégias de vacinação “mais inteligentes” como têm vindo a ser implementadas, a procura activa de casos “invisíveis” através da testagem proactiva nos grupos etários agora mais atingidos e no seu subsequente isolamento. As actuais políticas públicas de Saúde Pública respondem a essa necessidade, ainda que as unidades de Saúde Pública “extenuadas ou mesmo exauridas” continuem com insuficientes recursos (não têm a visibilidade dos Cuidados Intensivos).

É que, com o actual ritmo de vacinação, em cada quinzena, estamos a imunizar cerca de 15% da população (pelo menos para prevenir a doença grave) mas a imunidade demorará muitas semanas a ser obtida quer pela variabilidade da imunoterapia, quer pela variabilidade individual!

Entretanto, as escolas vão para férias grandes (o que é uma boa ajuda) e a vacinação de jovens com idade inferior a 18 anos emergirá por certo com o aumento da disponibilidade de vacinas o que perspectiva maior dificuldade da partícula viral circular.

No meio disto tudo uma coisa permanece: a necessidade de todos e de cada um de nós manter as atitudes e os comportamentos indispensáveis a dificultar a circulação do vírus porque, tal como o provérbio “quem porfia mata caça”, tudo se pode resumir a que para se obter um qualquer objectivo é preciso uma boa dose de paciência e uma não menor determinação. Na pandemia não será diferente.

Nota: Publicado inicialmente em Healthnews


António de Sousa Uva, médico e professor, 2021

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