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15 novembro 2021

+COVID-19: SARS-CoV-2 no sapatinho?

 

                                                                                          Antonio Sousa-Uva

 

A cinco semanas do natal (e seis do Ano Novo), com o perfil epidémico actual e a “rapidez” de resposta ao aumento desmedido da circulação do vírus, é certo que o Natal está comprometido mais uma vez. Resta saber em que medida!

 

A Europa é varrida por uma quarta vaga de COVID-19 (quinta se se considerar a onda encavalitada de há um ano como duas) mesmo com taxas de vacinação muito elevadas (na Europa, quase dois terços com pelo menos uma dose de vacina e por cá quase nove em dez cidadãos …).

 

Aparentemente, isso é encarado como o “destino” e renasce um novo D. Sebastião (mesmo contra sua vontade) para quem aposta tudo na dose de reforço e na vacina contra a gripe. O que será necessário para se vislumbrar mais veemência em mensagens com indicações para “dificultar a vida à partícula viral”?

 

Algum conhecimento já disponível indica maior atingimento e transmissibilidade em vacinados do que se esperava e isso explicará, pelo menos parcialmente, o referido aumento. O outono, com o tempo frio e a preferência do “indoor” será outra explicação adicional. Também a vida mais próxima do período pré-pandémico ajudará e não parece (ou transparece) que as Autoridades adequem a resposta à situação concreta ou, pelo menos, ao tempo da sua definição e aplicação.

 

Tudo leva a crer que o dramatismo da sobrecarga das unidades hospitalares com casos em urgência, internamentos e cuidados intensivos constitui o verdadeiro ”interruptor” de resposta à epidemia e, dada a diminuição da gravidade dos casos determinada pela vacinação, essa pressão não parece ser suficiente para adequar a resposta em políticas de Saúde Pública. Mas o Natal e o Ano Novo não serão suficientes para reagir mais energicamente?

 

Alguma instabilidade política em período pré-eleitoral também ajudará, mas não seria desejável mais (re)acção?

 

Estaremos cientes que não é possível medidas que o estado de emergência permitiria?

 

Não será suficiente o conhecimento do que se está a passar há semanas na Europa Central e Oriental?

 

A adesão à dose de reforço dos grupos populacionais mais expostos e/ou com maior gravidade da doença não vai chegar. É preciso voltar a reforçar a necessidade de distanciamento físico e o uso de barreiras individuais e/ou colectivas ou queremos outro apagão“ da nossa economia?

 

Está na nossa mão (re)agir de forma mais empenhada porque, por certo, não se pretende que se repitam fenómenos semelhantes aos já ocorridos! Ou estou errado?

14 novembro 2021

A Saúde Ocupacional e a pandemia da COVID-19: velhos problemas com novos desafios ou novos problemas com velhos desafios?

 


 Antonio Sousa-Uva


A atual situação pandémica que vivemos, de que é responsável o Coronavírus SARS-CoV-2, colocou na ordem do dia os aspetos da Saúde Ocupacional (também denominados de Saúde e Segurança do Trabalho) e, nesse contexto, o papel dos profissionais de saúde desses serviços, designadamente dos médicos do trabalho e as suas competências e capacidades no combate à situação que ainda vivemos.

As grandes finalidades da Saúde Ocupacional são a prevenção médica e ambiental das doenças profissionais (e de outras doenças “ligadas ao trabalho”) e dos acidentes de trabalho, a promoção da saúde de quem trabalha e a contribuição, na sua área de atuação, para a manutenção da capacidade de trabalho “perseguindo” o grande objetivo que a população que cria riqueza se mantenha saudável e segura mas, mais importante ainda, que tendencialmente a sua capacidade de trabalho seja, senão igual, muito próxima da capacidade de trabalho no início da vida activa o que está muito para além da simples ausência de doença. Isto é, não só se quer que as pessoas não percam a sua vida (e saúde) a trabalhar, mas que se mantenham activas e produtivas e mesmo “comprometidas” com as organizações em que trabalham.

Tal campo de atuação “entrelaça-se” também no risco de transmissão da infeção pelo novo Coronavírus que, em meio profissional, pode ser essencialmente de três tipos:

  1. risco geral que é idêntico à probabilidade de contágio para qualquer pessoa ou trabalhador. O vírus circula num grupo de pessoas, quer estejam a trabalhar ou não, e a probabilidade de se infetarem, grosseiramente, é semelhante à probabilidade de um qualquer cidadão;
  1. risco geral acrescido em que certos contextos podem determinar um aumento da probabilidade de infeção com o Coronavírus SARS-CoV-2, como por exemplo, as situações de trabalho que exigem contactos muito frequentes com outras pessoas no exercício da atividade profissional, como acontece em situações de atendimento ao público como, por exemplo, na venda de alimentos, em cabeleireiros ou barbearias, em restaurantes ou em supermercados ou ainda no abastecimento de combustíveis; e
  1. risco específico que envolve trabalho em que os trabalhadores laboram com uma elevada probabilidade de infeção, como acontece por exemplo na prestação de cuidados clínicos a portadores do vírus (ou casos suspeitos), como por exemplo, os profissionais de saúde dedicados ao diagnóstico e tratamento de doentes infetados ou, por exemplo, que processam produtos biológicos contendo o vírus.

A participação dos profissionais de Saúde Ocupacional na implementação de medidas preventivas no âmbito da COVID-19, a instituir pela empresa (ou por outra qualquer organização) deverá ter em conta essa “estratificação de risco” já que, entre outros e para além de aspetos muito referidos (e importantes) como as vias de transmissão direta (via aérea e por contacto) e as vias de transmissão indireta (por exemplo, superfícies/objetos contaminados ou partilha de ferramentas e outros objetos de trabalho), existem variáveis de natureza individual, como a idade ou as doenças crónicas que possam existir, que participam também nesse conceito de risco.

Seguramente que as situações de risco específico, por conterem o agente da doença, deverão ser caracterizadas, caso ocorra a transmissão, como uma doença profissional, podendo também algumas das situações de risco geral acrescido vir a ser igualmente caraterizadas como tal. A Organização Mundial de Saúde há algum tempo que já se pronunciou sobre essa matéria.

Assim sendo, tais situações de risco (risco geral, risco geral acrescido e risco específico) constituem situações concretas do âmbito de intervenção da Medicina do Trabalho e da Saúde Ocupacional (ou ainda, se se preferir, da Saúde e Segurança dos Trabalhadores - SST), ainda que com dimensões e níveis de compromisso diversificados.  

As empresas e os seus Serviços de Saúde Ocupacional (ou de SST) devem portanto ativamente colaborar na gestão desse risco, ou se se preferir na contenção (ou na mitigação) dos possíveis efeitos da pandemia por Covid19, como parte da sua área de atuação através da sua responsabilidade de cooperação com as Autoridades de Saúde e com a continuação do negócio. Devem apoiar a empresa (ou organização) no diagnóstico e gestão desse risco e ainda planear formas de diminuir o contágio, designadamente o distanciamento físico no local de trabalho através, por exemplo, do aumento de espaço entre trabalhadores (espaço unitário de trabalho), a proposta da segregação no espaço e no tempo (por exemplo a alteração de horários de trabalho ou, por exemplo, o distanciamento físico em reuniões). Participam ainda nos planos de contingência das empresas que deverão considerar estas questões, tal como a Saúde Ocupacional, como um “problema” da organização e não como um “problema dos médicos”.

As situações de trabalho com risco específico exigem obviamente uma especial (e também específica) atenção, já que nesses casos a atividade (de trabalho), mais dos que as condições de trabalho, assim o exige, como é o exemplo paradigmático dos Serviços de Saúde Ocupacional de Hospitais e, quando existentes, também dos Agrupamentos de Centros de Saúde (ACES).

O que, em nosso entendimento se passou neste último ano e meio, foi que muitas organizações (incluindo empresas) que têm dedicado a estes aspetos muito pouca atenção, se não mesmo uma atenção semelhante à que se dedica a algo imposto (como as obrigações tributárias), ficaram parcialmente privadas dos melhores meios (incluindo formas organizativas e recursos de diversa natureza) para “combater” a infecção e para preservar melhor, nessas dimensões, a continuidade de negócio.

Qualquer situação de crise, como se sabe, também constitui uma oportunidade de melhoria. Oxalá esta situação tenha despertado uma maior atenção pela área da Medicina do Trabalho e da Saúde Ocupacional e uma oportunidade de melhoria da sua valorização no seio das organizações. Da minha parte, porque entendo que todas as partes envolvidas são ganhadoras, continuarei a apostar “todas as fichas” nisso porque não tenho dúvidas (o que para mim é pouco frequente) que a qualidade de qualquer “produto” depende da qualidade da sua produção e que essa depende, também, da saúde e segurança de quem trabalha. 

De que estamos então à espera para olhar para essa área mais como um investimento do que como um custo?


Nota: Publicado inicialmente em Healthnews

22 julho 2021

+COVID-19: a propósito das grelhas de avaliação de risco.



 António Sousa-Uva


Eis-nos instalados, há cerca de quatro semanas, num amplo debate sobre a matriz de avaliação de risco pandémico. Tendo estudado, copiosamente, esse tema na preparação da nossa Agregação, há cerca de vinte anos, vem-nos à memória, muitas vezes, posteriores (e demoradas) discussões com alguns doutorandos e outros alunos (incluindo mestrandos) sobre aspectos de “risk assessment” (que traduzimos como diagnóstico das situações de risco e não avaliação do risco) de riscos profissionais (Sousa Uva, 2010). É tão grande esse interesse científico que criámos, há muito, uma unidade curricular de “Avaliação e gestão do risco em Saúde Ocupacional” no ensino pós-graduado.

Convirá desde logo afirmar que somos muito críticos em relação à utilização de “grelhas de avaliação de risco”, essencialmente, porque essa utilização é, quase sempre, muito redutora do processo da denominada “caracterização do risco” muitas vezes apelidada “análise de risco” (conceito que há muito não utilizamos por ser referido frequentemente com significados muito díspares, até por estudiosos e investigadores). E o risco (agora sem grelha) é de algumas abordagens dessa matéria se transformarem numa “conversa de surdos sem linguagem gestual”.

Confesso, todavia, que, apesar disso, reconheço a utilidade das grelhas. Essencialmente, na fase de identificação dos factores que estão na origem desse risco (factores de risco) e numa perspectiva dinâmica de evolução (preferencialmente categorial) numa dimensão de gestão do risco. Dito de outra forma, a perspectiva é mais de tendências do que de escalas que, quando numéricas, muitas vezes são “abusivamente” interpretadas (quase sempre fora do contexto em que foram criadas…). É tão certa essa perspectiva que orientámos uma tese de doutoramento que demonstrou, nas mesmas situações de trabalho, resultados opostos de avaliação consoante as grelhas utilizadas.

Vem isto a propósito das grelhas de risco, também denominadas matrizes, desenvolvidas para monitorizar a evolução da pandemia numa perspectiva, essencialmente, de necessidade (ou não) de aplicação de medidas de gestão do risco que habilitem o poder político na decisão de impor medidas, essencialmente de “damage control” ou de mitigação. No caso de uma pandemia a necessidade de sensatez na sua interpretação escala já que a avaliação é feita com um grau de incerteza enorme decorrente do fenómeno estar a acontecer. Ilustre-se o que se disse com o que já é conhecido das estirpes do vírus ao longo do tempo e o seu efeito pandémico indiscutível. E alguém sabe o que estará ainda para vir numa perspectiva diferente da tendência?

O problema, quase sempre, não se situa só na grelha de análise mas, outrossim, na interpretação de resultados a montante da decisão que se toma. E essa é a principal questão: as grelhas ajudam na tomada de decisão mas não a determinam. Tal significa que devem (os resultados) ser interpretados de forma inteligente e igualmente muito sensata, já que a aplicação da grelha é sempre um meio e nunca um fim, seja do que for.

O que propomos é que, seja qual for a grelha a que se recorra para “risk assessment”, a sua interpretação seja feita, sempre, como um recurso “instrumental” que “ajuda” na tomada de decisão e que nunca deve ser confundida com um “instrumento de medida” infalível como é, po exemplo, sugerido pela utilização cega dos “cut off” ou limiares.

É que a Saúde Pública, pela sua dimensão social, política e inter e transdisciplinar, é um pouco mais complexa que quaisquer abordagens exclusivamente técnicas que, pelo resultado de um qualquer exame complementar de diagnóstico, determinam a presença ou a ausência de algo. Por outras palavras, a utilização de grelhas (ou matrizes, se se preferir) não tem o papel de uma balança na definição do “peso certo”. A decisão em Política julgamos ser ainda mais complexa e, é bom lembrar, que todos dependemos dela!

 

 NOTA: Publicado inicialmente em Healthnews.


Bibliografia

·      Sousa Uva A.  Diagnóstico e Gestão do Risco em Saúde Ocupacional. Lisboa:  ACT, 2010, 2ª ed, isbn:978-898-8076-02-1. 

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