Portugal foi, em 1948, um dos países
fundadores da Organização Europeia de Cooperação Económica, criada na sequência
do fim da Segunda Guerra Mundial. Mais tarde, em 1960, com os Estados Unidos e
o Canadá, os dezoito estados fundadores originaram a Organização para a
Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE) que a substituiu e que hoje abrange
um bem maior número de países.
A OCDE publica, regularmente, o Health at a Glance1 com um conjunto interessante de
indicadores de saúde que constitui há muito um documento de consulta
obrigatória. Para quem não se recorda, na primavera e outono de 2020, muito se
falou do excesso de mortalidade a propósito da COVID-19.
É muito interessante verificar, mais uma vez e agora de forma mais
consolidada, a discrepância entre a perspectiva política e a dos estudiosos e
investigadores em relação a muitas matérias e, designadamente àquele excesso de
mortalidade. Apesar da muita “verborreia” sobre essa matéria, não parecem
restar dúvidas que a COVID-19, directa ou indirectamente, contribuiu para um
aumento de 16% do número esperado de mortes em 2020 e primeiro semestre de 20211.
Mais ainda, em 24 de 30 países a esperança de vida diminuiu,
destacando-se os EUA (menos 1,6 anos) e a Espanha
(menos 1,5 anos), já que mais de 90% dos óbitos ocorreram em maiores de 60 anos
e, claro e como sempre, em populações mais vulneráveis pelas mais variadas
razões.
Menos falado tem sido o impacto na Saúde Mental e a “COVID crónica” (ou
Long COVID), esta última podendo atingir mais de um terço dos doentes.
No nosso caso, logo na primavera de 2020, investigámos os aspectos das repercussões na Saúde Mental
dos médicos e outros profissionais de saúde e do teletrabalho2-3. Estas matérias serão, por certo, alvo de
inúmeros estudos e carecem, portanto, ainda da criação de mais (e melhor) informação.
O que parece certo é que a actual pandemia teve para além das consequências
directas na saúde diversas repercussões indirectas, muitas delas ainda por
esclarecer. Indirectamente parece óbvio o impacto na prestação de cuidados de
saúde, já ilustrado pelo aumento das listas de espera cirúrgicas, restando a
parte invisível de que o adiamento da precocidade dos diagnósticos (não só de
cancro) é um marcante exemplo.
São consequências “devastadoras” do impacto
de uma pequena partícula viral que vão muito para além dos mais de 250 milhões de casos “oficiais” de doença e dos 5 milhões de óbitos. O Health at a Glance 20211 já reflecte bem o
início desse grave impacto na nossa saúde.
Referências
bibliográficas
1 OECD. Health at
a Glance 2021. OECD Indicators. Paris: OECD
Publishing. Em linha. Disponível em: https://www.oecd-ilibrary.org/social-issues-migration-health/health-at-a-glanc
e-2021_ae3016b9-en. Consultado em 16 de novembro de 2021.
2 Sousa-Uva M, Sousa-Uva A, Serranheira F. Prevalence of COVID-19 in health professionals and occupational psycosocial risks. Rev. Bras. Med. Trab. 2021;19(1):73-81.
3 Sousa-Uva M, Sousa-Uva A, Sampayo M, Serranheira F. Telework during the COVID-19 epidemic in Portugal and determinants of job satisfaction: a cross-sectional study. BMC Public Health. 2021;21:2217 (doi: 10.1186/s12889‑021‑12295‑2).
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