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21 outubro 2022

A Saúde num relance: a propósito do excesso de mortalidade

 



Antonio Sousa-Uva


Portugal foi, em 1948, um dos países fundadores da Organização Europeia de Cooperação Económica. Mais tarde, em 1960, com os Estados Unidos da América e o Canadá, os dezoito Estados fundadores originaram a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE) que a substituiu.


A OCDE publica, regularmente, o Health at a Glance com um conjunto interessante de indicadores de saúde que constitui há muito, para quem se dedica a esta área, um documento de consulta obrigatória. Para quem não se recorda, na primavera e outono de 2020, muito se falou do excesso de mortalidade a propósito da COVID-19, voltando agora, de novo, esse tema “a inflamar”. Tal, anteriormente, era abordado basicamente a propósito das ondas de calor (por exemplo, o índice Ícaro ou GATO, seu acrónimo em inglês).


É muito interessante verificar, mais uma vez e agora de forma mais consolidada, a discrepância entre a perspectiva política e a dos estudiosos e investigadores em relação a muitas matérias e, designadamente àquele excesso de mortalidade cuja explicação está, por certo, muito para além de abordagens baseadas em perspectivas demasiado simplistas. Apesar da muita “verborreia” sobre essa matéria, não parece restar dúvida que a COVID-19, directa ou indirectamente, poderá ter contribuído, de alguma forma, para um aumento de cerca de 16% do número esperado de mortes em 2020 e primeiro semestre de 2021.

Mais ainda, em 24 de 30 países a esperança de vida diminuiu (entre nós com repercussão na idade da reforma para 2023), destacando-se os EUA (menos 1,6 anos) e a Espanha (menos 1,5 anos), já que mais de 90% dos óbitos ocorreram em maiores de 60 anos e, claro e como sempre, em populações mais vulneráveis pelas mais variadas razões.

Menos falado tem sido o impacto na Saúde Mental e a “COVID crónica” (ou Long – quão longo? – COVID), esta última podendo atingir mais de um terço desses doentes. E menos ainda se tem falado das relações trabalho/saúde(doença) relacionadas, por exemplo, com respostas à pandemia, como o trabalho à distância.

No nosso caso, logo na primavera de 2020, também investigamos os aspectos relacionados com as repercussões na Saúde Mental dos médicos e de outros profissionais de saúde e também alguns aspectos relacionados com o teletrabalho. Estas matérias serão ainda, por certo, alvo de inúmeros outros estudos mais robustos e carecem, portanto, da criação de mais (e melhor) informação.

O que parece certo é que a actual pandemia teve, para além das consequências directas na saúde dos cidadãos, diversas outras repercussões indirectas, muitas delas ainda por esclarecer. Indirectamente parece óbvio o impacto na prestação de cuidados de saúde, por exemplo, das consequências do adiamento da precocidade dos diagnósticos (não só de cancro, que é disso um marcante exemplo). Mas a grande questão que “fermenta” é se esses atrasos se poderão relacionar com o actual aumento de mortalidade? Saberemos o suficiente sobre essas interdependências? O que estamos a fazer para criar e divulgar mais conhecimento nessa matéria?

 Por outro lado, simultaneamente, terá por certo ocorrido uma redução da mortalidade por acidentes rodoviários e de trabalho e por outras doenças infecciosas transmitidas por via aérea.  Certo é que, em 2020, nos países da OCDE e com os dados disponíveis, ocorreu um excesso de 1,8 milhões de mortes, em comparação com a média dos cinco anos anteriores (ainda em média, cerca de mais 11% de óbitos) e que tal achado deve determinar a criação de mais conhecimento nesse âmbito.

O impacto de uma pequena partícula viral ainda é incompletamente conhecido e irá muito para além das mais de seis centenas de milhões de casos “oficiais” de doença e dos mais de 6,5 milhões de óbitos. O Health at a Glance 2021 já indicia bem o início desse importante impacto na nossa saúde.

Os dados preliminares de 2021 apontam para o excesso de mortalidade, mais nos grupos etários mais velhos (65 ou mais anos) que, em alguns países e com se referiu, é superior a 15%, como por exemplo na nossa vizinha Espanha. Por cá, veremos o que sucederá, o que, por certo, também dependerá das respostas a ser dadas pelo nosso sistema de saúde (que, esclareça-se pela “enésima” vez, não é sinónimo de serviço nacional de saúde).


Nota: Publicado inicialmente na plataforma Healthnews.

24 dezembro 2021

+COVID-19: o reiterado esquecimento da resposta da Saúde Pública à pandemia e o actual renascimento dos “rastreadores”!

 Antonio Sousa-Uva 

 

A fazer fé na informação veiculada pelo Jornal i do passado dia 23 de dezembro de 2021, mais de 200.000 cidadãos estão em isolamento profilático! Tal corresponde aproximadamente a 2% da população.

 

É muito interessante constatar que os profissionais de saúde evocados nesta emergência de Saúde Pública são, para além dos profissionais de saúde (médicos, enfermeiros e outros profissionais) dos hospitais, nenhuns outros. Quase nada se fala da Medicina Geral e Familiar e menos ainda das Unidades de Saúde Pública, a nível local e regional já que, afortunadamente, a nível nacional a Direcção-Geral de Saúde Pública (como é muitas vezes apelidada) é profusamente evocada e, como se sabe, acumula funções de Autoridade de Saúde Nacional.

 

Mas há uma excepção a todo esse “apagão”, os denominados “rastreadores” que é uma nova “profissão” condenada à morte mal a pandemia esteja (real ou aparentemente) controlada. O seu nascimento tem-se relacionado com uma emergência de resposta à míngua de profissionais nas Unidades de Saúde Pública e incluem cidadãos “treinados” por médicos (e outros profissionais) de Saúde Pública dessas Unidades para promover a iminente necessidade de isolamento de casos (confirmados ou suspeitos). Existem nos rastreadores diferentes relações de vínculo, diferentes origens e formações e até recursos humanos de estruturas militares.

 

Claro que é um improviso (justificado pela situação de emergência, ainda que com dois anos de existência) e, por isso, acalmada a intempérie das ondas pandémicas, finam-se essas respostas extemporâneas que podem “ressuscitar” em caso de novos agravamentos, mas sempre com igual grau de improvisação, como agora parece acontecer. Ora tal resposta (des)organizada em épocas, como a actual fase pandémica, com uma nova variante “VirusGV, qual TrainGV” e das Festas de Natal e Ano Novo, fica condenada a uma resposta difícil de adjectivar. Acresce ainda o provável escalar do R(t) que se vislumbra que comece (se já não está) a empinar e, aparentemente, o importante encurtamento do tempo de incubação e de transmissibilidade não augura nada de bom nestas próximas duas semanas.

 

Numa especialidade que exercemos, a Medicina do Trabalho, “prima” da Saúde Pública, há muitos anos que éramos conhecidos na gíria, mas claro que em círculo restrito, como os “médicos dos croquetes e das retretes”, julga-se que sublinhando (e também apoucando) uma referência ao papel desses médicos do trabalho em intervenções nos refeitórios e em instalações sanitárias das empresas ou outras organizações. Felizmente isso acabou e hoje somos muito mais valorizados, se  porventura não estou míope!

 

E os médicos de Saúde Pública e os outros profissionais das Unidades de Saúde Pública como, por exemplo, os enfermeiros de Saúde Pública e os profissionais da área da Saúde Ambiental como estarão? Serão em número suficiente para tal gigantismo de tarefas? Terão os recursos suficientes para tais tarefas e, pior ainda, para a necessidade de resposta emergente?

 

Diria que, com as excepções da Autoridade Nacional de Saúde e de poucos dirigentes de Associações e outras organizações profissionais conexas, os profissionais da área da Saúde Pública só são recordados para lhes atribuir alguns comentários de insuficiente resposta ou, pior ainda, são “substituídos” por aquela nova profissão: os rastreadores. Imagine-se algo equivalente em unidades de cuidados intensivos: os "intencivadores"! 


Sem qualquer desprimor para os rastreadores a quem devemos estar gratos, assim que cessar a emergência, será que se olhará para a Saúde Pública de outra forma?


Lisboa, 24 de dezembro de 2021

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