Mostrar mensagens com a etiqueta Incidência mundial. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Incidência mundial. Mostrar todas as mensagens

17 agosto 2022

+COVID-19: a atingir os 600 milhões de casos registados!

  


                                                                                          Antonio Sousa-Uva


Já não faltará muito para atingirmos os seiscentos milhões de casos de COVID-19, registados como tal, o que não é por certo o número real de casos. Extrapolando para a população mundial o que por cá se passa, poderão ser seis vezes mais os casos reais. E 6,5 milhões de mortos por (ou com) COVID-19 (mais do que a nossa população activa civil empregada)!


Escrevia, a propósito dos 400 milhões de casos, que, aparentemente, a evolução da partícula viral indicia que o perfil endémico não estará longe. Julgo estarmos agora mais perto dessa situação já com uma economia próxima do que se passava no período pré-pandémico e uma gravidade da doença bem diferente do período pré-vacinação.


Outra realidade é que a resposta mundial à pandemia tem recorrido a estratégias de acção muito diversas (bastará a esse propósito referir a estratégia chinesa ou a neozelandesa) e uma iniquidade “gritante” entre países. Seria muito interessante "dissecar" no futuro os seus resultados e aprender com essas diferentes experiências. Mas terá o mundo aprendido o suficiente para aprofundar sistemas de vigilância (e de acção) mais robustos para melhor reacção a situações futuras?


Oxalá saibamos tirar ilações para o futuro, adequando os sistemas de saúde a respostas mais adequadas para não voltar a viver novas situações como a que ainda estamos a viver. Para isso, independentemente das opções que se façam, o investimento em Saúde Pública e na Prevenção tem que ser muito robustecido ou em breve poderemos estar em situações muito semelhantes à que ainda estamos a viver. E robustecido significa que tem que ter mais recursos e competências que não se obtêm sem definir essa estratégia de acção!

03 janeiro 2022

+COVID-19: ano novo, vida velha?

 Antonio Sousa-Uva 

 

Ninguém sabe!

 

A manter-se o que está, a população infectada a cada três dias e num mês corresponderia a cerca de 10% da população infectada ou seja, um pouco menos que a totalidade dos novos casos desde o início da pandemia. Vamos ver o que janeiro nos reserva!

 

A população mobilizou-se para se testar na ânsia de ter umas Festas mais parecidas com o período pré-pandémico. De facto, faz sentido uma estimativa de, pelo menos, 10% da população ter feito um (qualquer) teste e também aí residirá a explicação para uma taxa de positividade mais de duas vezes acima do que se convencionou chamar “linha vermelha” (já que não é seguramente linha e a cor é indeterminada …).

 

De facto, o número de testes só se compara com o Reino Unido, estando muito acima da nossa vizinha Espanha ou da França e mais ainda da Alemanha. Os novos casos, nos últimos 7 dias, estão mesmo na ordem dos 1500 por milhão, só ultrapassados, na Europa, pela Espanha, pela França e pelo Reino Unido e bem acima da Itália e da Alemanha, por exemplo.

 

O índice de transmissibilidade caminha para os 1,5 (ainda assim abaixo do que se observa em Espanha próximo dos 2), mas praticamente o dobro do que se observa na Alemanha o que significa que ainda vai crescer o número de casos.

 

Como será o ano de 2022? Aparentemente, a partícula viral faz o seu caminho para se tornar um vírus endémico sazonal!  No entanto, em boa verdade nada sabemos sobre o tempo que tal trajecto demorará e é bem provável que ainda tenhamos vida velha neste novo ano pelo menos até ao verão.

 

Entretanto cerca de 60% da população mundial tem pelo menos uma dose da vacina, ainda que os países menos abonados tenham uma taxa inferior a 10% o que aumenta a probabilidade de mais replicação e maior risco do aparecimento de outras variantes (a próxima será a pi, caso não se volte a dar um salto no alfabeto grego …).

 

Enfim, será este ano novo, “ano novo, vida nova” ou “ano novo, vida velha”?

 

3 de janeiro de 2022

11 novembro 2021

+COVID-19: um “coup d’oeil” sobre a nossa Saúde


Antonio Sousa-Uva


Portugal foi, em 1948, um dos países fundadores da Organização Europeia de Cooperação Económica, criada na sequência do fim da Segunda Guerra Mundial. Mais tarde, em 1960, com os Estados Unidos e o Canadá, os dezoito estados fundadores originaram a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE) que a substituiu e que hoje abrange um bem maior número de países.


A OCDE publica, regularmente, o Health at a Glance1 com um conjunto interessante de indicadores de saúde que constitui há muito um documento de consulta obrigatória. Para quem não se recorda, na primavera e outono de 2020, muito se falou do excesso de mortalidade a propósito da COVID-19.

 

É muito interessante verificar, mais uma vez e agora de forma mais consolidada, a discrepância entre a perspectiva política e a dos estudiosos e investigadores em relação a muitas matérias e, designadamente àquele excesso de mortalidade. Apesar da muita “verborreia” sobre essa matéria, não parecem restar dúvidas que a COVID-19, directa ou indirectamente, contribuiu para um aumento de 16% do número esperado de mortes em 2020 e primeiro semestre de 20211.

 

Mais ainda, em 24 de 30 países a esperança de vida diminuiu, destacando-se os EUA (menos 1,6 anos) e a Espanha (menos 1,5 anos), já que mais de 90% dos óbitos ocorreram em maiores de 60 anos e, claro e como sempre, em populações mais vulneráveis pelas mais variadas razões.

 

Menos falado tem sido o impacto na Saúde Mental e a “COVID crónica” (ou Long COVID), esta última podendo atingir mais de um terço dos doentes.

 

No nosso caso, logo na primavera de 2020, investigámos  os aspectos das repercussões na Saúde Mental dos médicos e outros profissionais de saúde e do teletrabalho2-3. Estas matérias serão, por certo, alvo de inúmeros estudos e carecem, portanto, ainda da criação de mais (e melhor) informação.

  

O que parece certo é que a actual pandemia teve para além das consequências directas na saúde diversas repercussões indirectas, muitas delas ainda por esclarecer. Indirectamente parece óbvio o impacto na prestação de cuidados de saúde, já ilustrado pelo aumento das listas de espera cirúrgicas, restando a parte invisível de que o adiamento da precocidade dos diagnósticos (não só de cancro) é um marcante exemplo.

 

São consequências “devastadoras” do impacto de uma pequena partícula viral que vão muito para além dos mais de 250 milhões de casos “oficiais” de doença e dos 5 milhões de óbitos. O Health at a Glance 20211 já reflecte bem o início desse grave impacto na nossa saúde.

 

Referências bibliográficas

1 OECD. Health at a Glance 2021. OECD Indicators. Paris: OECD Publishing. Em linha. Disponível em: https://www.oecd-ilibrary.org/social-issues-migration-health/health-at-a-glanc e-2021_ae3016b9-en. Consultado em 16 de novembro de 2021.

2 Sousa-Uva M, Sousa-Uva A, Serranheira F. Prevalence of COVID-19 in health professionals and occupational psycosocial risks. Rev. Bras. Med. Trab. 2021;19(1):73-81. 

3 Sousa-Uva M, Sousa-Uva A, Sampayo M, Serranheira F. Telework during the COVID-19 epidemic in Portugal and determinants of job satisfaction: a cross-sectional study. BMC Public Health. 2021;21:2217 (doi: 10.1186/s12889‑021‑12295‑2).

12 julho 2021

+COVID-19: com uma semana de atraso em relação ao previsto, no mundo, quase 200 milhões de casos registados e mais de 4 milhões de óbitos!

 

Antonio Sousa-Uva


Entre nós, a partir da semana de 4 de julho, o aumento de novos casos “galopa” (mantidamente acima dos 3000 casos diários) e as medidas tomadas revelam-se insuficientemente eficazes na actual onda pandémica. O certificado digital, gradualmente, torna-se uma espécie de “gazua” para diversos acontecimentos e actividades sociais do dia-a-dia e, dessa forma, as atitudes e comportamentos são gradualmente hipovalorizados já que a interpretação é que “o ovo já está carimbado” … o que não se pode dizer que seja uma medida ideal de gestão do risco.

Os Conselhos de Ministros das 5ª feiras já tem este ponto da agenda cativo e as subsequentes conferências de imprensa passam a concentrar o que antes era abordado diariamente, muitas vezes por diversas vezes, pela área da Saúde. Também a definição de alto e baixo risco continua a não ter em conta variáveis individuais como é, concretamente, o exemplo da vacinação. E rapidamente se instalam referências a uma espécie de inutilidade da vacina completa, qual exemplo prático concreto das dificuldades de “comunicação do risco” já antes identificadas. É difícil de compreender, mas acontece!

Em relação às estirpes e variantes já estamos no lambda e ainda estará longe a vigésima quarta letra do alfabeto grego (“quando lá chegar o Omega é meu …!”). Concretamente a variante delta já domina largamente em todo o país e o pseudo-cordão sanitário dos fins de semana fina-se (e bem!), presumindo-se que a partícula viral se adapta mal aos ciclos de trabalho das sociedades modernas ainda que se compreenda o intuito de reduzir o contacto entre pessoas.

A fadiga pandémica também “galopa” e a receptividade a medidas de distanciamento está tão exaurida que o actual tempo de férias e tempo quente aprofundam muito o desconforto de sermos todos “agentes de Saúde Pública”. A vacinação também “galopa” com um intenso esforço nacional do SNS e do poder local, ainda que os modelos organizativos nem sempre sejam perfeitos.

Os “treinadores de bancada”, mesmo oriundos do Ensino e Investigação, crescem de novo como gramíneas e instala-se, de novo, uma floresta de opiniões muitas vezes “travestidas” de conteúdo científico. Convirá então reafirmar que o conhecimento (no seu sentido mais amplo que também engloba, por exemplo,  o empirismo) e as opiniões são indispensáveis à definição de políticas públicas de saúde mas não se devem confundir com elas.

Assim reage a população portuguesa à quarta vaga pandémica (presumindo-se a terceira encavalitada na segunda do final do ano passado). Ainda haverá quinta antes do vírus se tornar endémico? Espera-se que, pelo menos, a emergência de Saúde Pública termine ou, pelo menos, se torne não crítica para retomarmos a anterior malha e funcionamento social. 

Deve-se recordar que uma emergência pandémica desafia sempre a ordem estabelecida e deve ser perspectivada como uma situação de excepção que atinge todos os cidadãos e  que os valores comunitários podem interferir com as liberdades e garantias de cada um de nós. Exige-se, por isso, uma imensa dose de paciência e o reforço da determinação em dificultar ao máximo a transmissibilidade e ainda mais quando a partícula viral se vai adaptando, agravando as condições de circulação do vírus e a gravidade da sua expressão clínica. Contudo, não são a paciência nem a determinação que mais se respiram neste verão de 2021.

 

António de Sousa Uva, médico e professor

Lisboa, 12 de julho de 2021

Em destaque

+COVID-19: nova variante, novos desafios?