12 julho 2021

+COVID-19: com uma semana de atraso em relação ao previsto, no mundo, quase 200 milhões de casos registados e mais de 4 milhões de óbitos!

 

Antonio Sousa-Uva


Entre nós, a partir da semana de 4 de julho, o aumento de novos casos “galopa” (mantidamente acima dos 3000 casos diários) e as medidas tomadas revelam-se insuficientemente eficazes na actual onda pandémica. O certificado digital, gradualmente, torna-se uma espécie de “gazua” para diversos acontecimentos e actividades sociais do dia-a-dia e, dessa forma, as atitudes e comportamentos são gradualmente hipovalorizados já que a interpretação é que “o ovo já está carimbado” … o que não se pode dizer que seja uma medida ideal de gestão do risco.

Os Conselhos de Ministros das 5ª feiras já tem este ponto da agenda cativo e as subsequentes conferências de imprensa passam a concentrar o que antes era abordado diariamente, muitas vezes por diversas vezes, pela área da Saúde. Também a definição de alto e baixo risco continua a não ter em conta variáveis individuais como é, concretamente, o exemplo da vacinação. E rapidamente se instalam referências a uma espécie de inutilidade da vacina completa, qual exemplo prático concreto das dificuldades de “comunicação do risco” já antes identificadas. É difícil de compreender, mas acontece!

Em relação às estirpes e variantes já estamos no lambda e ainda estará longe a vigésima quarta letra do alfabeto grego (“quando lá chegar o Omega é meu …!”). Concretamente a variante delta já domina largamente em todo o país e o pseudo-cordão sanitário dos fins de semana fina-se (e bem!), presumindo-se que a partícula viral se adapta mal aos ciclos de trabalho das sociedades modernas ainda que se compreenda o intuito de reduzir o contacto entre pessoas.

A fadiga pandémica também “galopa” e a receptividade a medidas de distanciamento está tão exaurida que o actual tempo de férias e tempo quente aprofundam muito o desconforto de sermos todos “agentes de Saúde Pública”. A vacinação também “galopa” com um intenso esforço nacional do SNS e do poder local, ainda que os modelos organizativos nem sempre sejam perfeitos.

Os “treinadores de bancada”, mesmo oriundos do Ensino e Investigação, crescem de novo como gramíneas e instala-se, de novo, uma floresta de opiniões muitas vezes “travestidas” de conteúdo científico. Convirá então reafirmar que o conhecimento (no seu sentido mais amplo que também engloba, por exemplo,  o empirismo) e as opiniões são indispensáveis à definição de políticas públicas de saúde mas não se devem confundir com elas.

Assim reage a população portuguesa à quarta vaga pandémica (presumindo-se a terceira encavalitada na segunda do final do ano passado). Ainda haverá quinta antes do vírus se tornar endémico? Espera-se que, pelo menos, a emergência de Saúde Pública termine ou, pelo menos, se torne não crítica para retomarmos a anterior malha e funcionamento social. 

Deve-se recordar que uma emergência pandémica desafia sempre a ordem estabelecida e deve ser perspectivada como uma situação de excepção que atinge todos os cidadãos e  que os valores comunitários podem interferir com as liberdades e garantias de cada um de nós. Exige-se, por isso, uma imensa dose de paciência e o reforço da determinação em dificultar ao máximo a transmissibilidade e ainda mais quando a partícula viral se vai adaptando, agravando as condições de circulação do vírus e a gravidade da sua expressão clínica. Contudo, não são a paciência nem a determinação que mais se respiram neste verão de 2021.

 

António de Sousa Uva, médico e professor

Lisboa, 12 de julho de 2021

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