11 dezembro 2021

+COVID-19 e vacinação das crianças mais pequenas: Politic e Policy amalgamadas? Ou nem tudo o que parece é?


                                                                                                      Antonio Sousa-Uva


Muito se tem escrito e falado sobre a vacinação das crianças dos 5 aos 11 anos! E julgo que “a procissão ainda irá no adro” …

No essencial, a “avaliação de risco-benefício é favorável à vacinação” de acordo com a decisão. Restará “apenas” saber, que risco e que benefício … mas essas são “contas de outro rosário”.

A questão, agora em reflexão é, de novo, algo transversal à resposta ao “tsunami” pandémico: a possível excessiva “promiscuidade” entre as estratégias de acção em Saúde Pública (policy) e a decisão política das medidas a implementar (politic).

O patamar técnico-científico, caracterizado pelo rigor (ou pelo menos pela preocupação desse rigor), estará presente?

Também a isenção e a imparcialidade farão, com proporcionalidade, parte da equação?

Serão totalmente compatíveis os patamares da criação de conhecimento e a resposta política às populações, com crenças, ideologias e busca de compromissos?

Não seria preferível (e mesmo desejável) que as abordagens fossem separadas, ainda que a decisão política fosse sempre dominante?

Por exemplo, no Reino Unido, não são sobreponíveis os Órgãos Estatais, as Comissões de Consultoria (Advisory Committees) e as Comissões de Consultoria de Peritos (Expert Advisory Committees) e essa evolução demorou décadas a ser feita. Porque será que isso terá acontecido?

Entre nós, por exemplo, a Direcção-Geral da Saúde é, obviamente, um órgão estatal e o Conselho Nacional de Saúde Pública (CNSP) um Advisory Committee e as reuniões do Infarmed em que categoria se integram? Pretenderão ser uma reunião de um Expert Advisory Committee? Ou será, ainda que com quase dois anos, uma resposta ad hoc determinada pela emergência?

Deve-se recordar que o CNSP é parte integrante do Sistema de Vigilância em Saúde Pública, sendo o órgão consultivo do Governo no âmbito da prevenção e controlo das doenças transmissíveis, nomeadamente em epidemias. Apesar disso, e aparentemente com excepção da reunião de 11 de março de 2020 que, todos se recordarão, antecedeu a resposta à pandemia quanto às escolas, não tem reunido. Não se justificaria ser ouvido quanto à vacinação deste grupo etário?

Mais burocracia dirão alguns! Mas será então esse modelo organizativo adequado à resposta a surtos epidémicos de grande escala e pandemias? Estou um bocadinho confuso!


Nota: Publicado inicialmente na plataforma Healthnews

04 dezembro 2021

+COVID-19: covidar ou convidar para o Natal?

Antonio Sousa-Uva

  

Já não faltará muito para atingirmos os quatro dígitos de internamentos e os três dígitos nos cuidados intensivos já foram. Vem-me à memória de novo o “covidar ou convidar” a que aludi no verão de 20201.

 

Entretanto a variante Ómicron já está espalhada pelo mundo e no nosso espaço Europeu já está na maioria dos países. Coloca-se até a hipótese de que já estaria a circular no velho Continente antes da sua caracterização na África do Sul o que não parece provável. Aparentemente a sua transmissibilidade é elevada mas a gravidade da doença não parece ser e brevemente saberemos mais sobre a eficácia das actuais vacinas, em consequência das dezenas de mutações que sofreu.

 

Os indicadores de frequência da COVID-19 escalam, de novo, e hoje, dia 4 de dezembro de 2021, atingem quase seis mil casos. Mas mais preocupante é o aumento de internamentos em enfermaria e em cuidados intensivos e o número de óbitos que continua igualmente a escalar e, sabido que é o seu  “atraso” de algumas semanas em relação á incidência, deveria determinar, desde já, maiores precauções nas Festas que se aproximam.

 

Claro que a “semana-tampão” de janeiro indicia que tudo se poderá manter como está mas nada deveria anular que, sem alarmismos, se informasse a população que, para além do rappel da vacina e o reforço da testagem, investisse um pouco mais nas atitudes de prevenção que espero que sejam conhecidas de todos.

 

A nossa cultura dominante é no entanto mais centrada na “proibição” e na “coima” do que na educação e na literacia. É um bom exemplo disso a discussão da obrigatoriedade da vacina num país com, praticamente, 99% da população elegível vacinada. Quem discute isso ou sobre isso delibera não tem as nossas taxas de vacinação fará, por isso, sentido encetar essa discussão? Ou será que a cultura da proibição é indutora do seu contrário a “obrigação”?.

 

A ausência de comunicação adequada para a adopção de atitudes e comportamentos consentâneos com a situação pandémica actual, relacionar-se-á com aquilo?

 

É sobejamente conhecida a eficácia da vacina na prevenção da doença grave (e na letalidade) mas o mesmo não se pode dizer do que, na gíria, se chama “falência vacinal”. Depois do que hoje se sabe a “imunidade de grupo” parece que nunca será atingida, ainda que a partícula viral não circule da mesma maneira numa população vacinada em relação a uma não vacinada o que reforça ainda mais a necessidade da vacinação que, objectivamente e não por questões de opinião, é recomendável.

 

Não será isso suficiente para fazer um mais forte investimento nas tais “atitudes e comportamentos de grupo” com o mesmo empenho da "imunidade de grupo"?  

 

 

Referência

 

1 Sousa-Uva A. A COVID-19: convidar ou covidar? Disponível em: https://healthnews.pt/2020/07/23/a-covid-19-convidar-ou-covidar/

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