A fazer fé na
informação veiculada pelo Jornal i do passado dia 23 de dezembro de 2021, mais
de 200.000 cidadãos estão em isolamento profilático! Tal corresponde
aproximadamente a 2% da população.
É muito interessante constatar que
os profissionais de saúde evocados nesta emergência de Saúde Pública são, para
além dos profissionais de saúde (médicos, enfermeiros e outros profissionais)
dos hospitais, nenhuns outros. Quase nada se fala da Medicina Geral e Familiar
e menos ainda das Unidades de Saúde Pública, a nível local e regional já que, afortunadamente,
a nível nacional a Direcção-Geral de Saúde Pública (como é muitas vezes apelidada) é profusamente evocada e,
como se sabe, acumula funções de Autoridade de Saúde Nacional.
Mas há uma excepção a todo esse
“apagão”, os denominados “rastreadores” que é uma nova “profissão” condenada à
morte mal a pandemia esteja (real ou aparentemente) controlada. O seu
nascimento tem-se relacionado com uma emergência de resposta à míngua de
profissionais nas Unidades de Saúde Pública e incluem cidadãos “treinados” por médicos
(e outros profissionais) de Saúde Pública dessas Unidades para promover a
iminente necessidade de isolamento de casos (confirmados ou suspeitos). Existem
nos rastreadores diferentes relações de vínculo, diferentes origens e formações
e até recursos humanos de estruturas militares.
Claro que é um improviso (justificado
pela situação de emergência, ainda que com dois anos de existência) e, por
isso, acalmada a intempérie das ondas pandémicas, finam-se essas respostas
extemporâneas que podem “ressuscitar” em caso de novos agravamentos, mas sempre
com igual grau de improvisação, como agora parece acontecer. Ora tal resposta
(des)organizada em épocas, como a actual fase pandémica, com uma nova variante
“VirusGV, qual TrainGV” e das Festas de Natal e Ano Novo, fica condenada a uma
resposta difícil de adjectivar. Acresce ainda o provável escalar do R(t) que se
vislumbra que comece (se já não está) a empinar e, aparentemente, o importante encurtamento
do tempo de incubação e de transmissibilidade não augura nada de bom nestas próximas
duas semanas.
Numa especialidade que exercemos, a
Medicina do Trabalho, “prima” da Saúde Pública, há muitos anos que éramos
conhecidos na gíria, mas claro que em círculo restrito, como os “médicos dos
croquetes e das retretes”, julga-se que sublinhando (e também apoucando) uma
referência ao papel desses médicos do trabalho em intervenções nos refeitórios
e em instalações sanitárias das empresas ou outras organizações. Felizmente
isso acabou e hoje somos muito mais valorizados, se porventura não estou míope!
E os médicos de Saúde Pública e os
outros profissionais das Unidades de Saúde Pública como, por exemplo, os
enfermeiros de Saúde Pública e os profissionais da área da Saúde Ambiental como
estarão? Serão em número suficiente para tal gigantismo de tarefas? Terão os
recursos suficientes para tais tarefas e, pior ainda, para a necessidade de
resposta emergente?
Diria que, com as excepções da Autoridade Nacional de Saúde e de poucos dirigentes de Associações e outras organizações profissionais conexas, os profissionais da área da Saúde Pública só são recordados para lhes atribuir alguns comentários de insuficiente resposta ou, pior ainda, são “substituídos” por aquela nova profissão: os rastreadores. Imagine-se algo equivalente em unidades de cuidados intensivos: os "intencivadores"!
Sem qualquer desprimor para os rastreadores a quem devemos estar gratos, assim que cessar a emergência, será que se olhará para a Saúde Pública de outra forma?
Lisboa, 24 de dezembro de 2021