24 dezembro 2021

+COVID-19: o reiterado esquecimento da resposta da Saúde Pública à pandemia e o actual renascimento dos “rastreadores”!

 Antonio Sousa-Uva 

 

A fazer fé na informação veiculada pelo Jornal i do passado dia 23 de dezembro de 2021, mais de 200.000 cidadãos estão em isolamento profilático! Tal corresponde aproximadamente a 2% da população.

 

É muito interessante constatar que os profissionais de saúde evocados nesta emergência de Saúde Pública são, para além dos profissionais de saúde (médicos, enfermeiros e outros profissionais) dos hospitais, nenhuns outros. Quase nada se fala da Medicina Geral e Familiar e menos ainda das Unidades de Saúde Pública, a nível local e regional já que, afortunadamente, a nível nacional a Direcção-Geral de Saúde Pública (como é muitas vezes apelidada) é profusamente evocada e, como se sabe, acumula funções de Autoridade de Saúde Nacional.

 

Mas há uma excepção a todo esse “apagão”, os denominados “rastreadores” que é uma nova “profissão” condenada à morte mal a pandemia esteja (real ou aparentemente) controlada. O seu nascimento tem-se relacionado com uma emergência de resposta à míngua de profissionais nas Unidades de Saúde Pública e incluem cidadãos “treinados” por médicos (e outros profissionais) de Saúde Pública dessas Unidades para promover a iminente necessidade de isolamento de casos (confirmados ou suspeitos). Existem nos rastreadores diferentes relações de vínculo, diferentes origens e formações e até recursos humanos de estruturas militares.

 

Claro que é um improviso (justificado pela situação de emergência, ainda que com dois anos de existência) e, por isso, acalmada a intempérie das ondas pandémicas, finam-se essas respostas extemporâneas que podem “ressuscitar” em caso de novos agravamentos, mas sempre com igual grau de improvisação, como agora parece acontecer. Ora tal resposta (des)organizada em épocas, como a actual fase pandémica, com uma nova variante “VirusGV, qual TrainGV” e das Festas de Natal e Ano Novo, fica condenada a uma resposta difícil de adjectivar. Acresce ainda o provável escalar do R(t) que se vislumbra que comece (se já não está) a empinar e, aparentemente, o importante encurtamento do tempo de incubação e de transmissibilidade não augura nada de bom nestas próximas duas semanas.

 

Numa especialidade que exercemos, a Medicina do Trabalho, “prima” da Saúde Pública, há muitos anos que éramos conhecidos na gíria, mas claro que em círculo restrito, como os “médicos dos croquetes e das retretes”, julga-se que sublinhando (e também apoucando) uma referência ao papel desses médicos do trabalho em intervenções nos refeitórios e em instalações sanitárias das empresas ou outras organizações. Felizmente isso acabou e hoje somos muito mais valorizados, se  porventura não estou míope!

 

E os médicos de Saúde Pública e os outros profissionais das Unidades de Saúde Pública como, por exemplo, os enfermeiros de Saúde Pública e os profissionais da área da Saúde Ambiental como estarão? Serão em número suficiente para tal gigantismo de tarefas? Terão os recursos suficientes para tais tarefas e, pior ainda, para a necessidade de resposta emergente?

 

Diria que, com as excepções da Autoridade Nacional de Saúde e de poucos dirigentes de Associações e outras organizações profissionais conexas, os profissionais da área da Saúde Pública só são recordados para lhes atribuir alguns comentários de insuficiente resposta ou, pior ainda, são “substituídos” por aquela nova profissão: os rastreadores. Imagine-se algo equivalente em unidades de cuidados intensivos: os "intencivadores"! 


Sem qualquer desprimor para os rastreadores a quem devemos estar gratos, assim que cessar a emergência, será que se olhará para a Saúde Pública de outra forma?


Lisboa, 24 de dezembro de 2021

23 dezembro 2021

+COVID-19: qualquer pandemia exige uma panresposta! Ao fim de 2 anos é isso que tem acontecido?


                                                                                                              Antonio Sousa-Uva 


Por cá a vigilância genómica realizada, também com recurso a algumas formas mais expeditas na rede laboratorial, já aponta para que mais de metade dos novos casos de infecção (ou doença) causada pelo SARS-CoV-2 possa ser causada pela nova variante.

 

Um ano depois do período perinatal de 2020 estamos mais rápidos a responder, apesar da prévia “explosão” do número de casos em alguns países, designadamente da Europa do Norte já indiciar uma nova onda pandémica e a nova variante ómicron, apesar das proibições feitas a viagens da África Austral, já estar presente na Europa já vai para cerca de 5 semanas. O tsunami mais recente no Reino Unido e em Espanha (tão próximos por ar ou por terra) veio determinar o que já se vislumbrava há semanas que por cá se passaria.

 

Hoje, 22 de dezembro, temos cerca de 9000 novos casos que, observada a curva pandémica, indiciam, sem ser necessário o recurso a complexos modelos matemáticos, que se vislumbra a possibilidade de, no mínimo, poder ocorrer a duplicação de casos diários nas duas ou três semanas que se avizinham que, grosseiramente irão, pelo menos até ao dia de Reis (que, recorde-se, usam coroa, etimologicamente do latim corona).

 

A Alemanha, por exemplo, reagiu bem mais precocemente, ainda na alvorada da eclosão da nova variante, estando a descer o número de casos há cerca de 2 ou 3 semanas depois de ter atingido o pico mais elevado de novos casos diários e da média de 7 dias. Todos se recordarão da veemência da resposta a essa onda, nem sempre bem compreendida, por parte da ex-Chanceler Angela Dorothea Merkel, apesar da então iminente cessação das funções políticas.

 

Há cerca de 1 ano que o Director-Geral da OMS, o Dr.  Tedros Adhanom Ghebreyesus, etíope e primeiro Director-Geral Africano da OMS  (a terminar o seu mandato de 5 anos na próxima primavera/verão) e o próprio Secretário-Geral das Nações Unidas, clamam, debalde, pela necessidade de uma panresposta à pandemia, centrando o seu discurso na necessidade de taxas de vacinação mais equilibradas em toda a população mundial, por oposição à iniquidade actual, para se poder obter um maior sucesso no combate à pandemia. Na Etiópia, por exemplo, a vacinação incompleta (sem rappel) abrange menos de 10% (cerca de 7%) da população e por cá estamos nos 90%.

 

De facto, a actual resposta mundial à pandemia permite ainda que em muitas zonas geográficas o vírus circule naturalmente nas populações e que dessa forma a replicação vá gerando, com mais facilidade, a possibilidade de surgirem novas variantes que não se esgotarão, por certo, na ómicron no processo de “adaptação” da partícula viral ao hospedeiro.

 

Será assim tão complicado compreender que problemas globais só se resolvem com respostas globais? É que com a actual mobilidade, a imunidade de grupo é da população mundial e não da população de cada país, e mais ainda com um vírus-camaleão como este corona.

 

Entretanto na África do Sul há cerca de 1 semana que se assiste à diminuição do número de novos casos.


Nota: Publicado inicialmente em Healthnews.

 

11 dezembro 2021

+COVID-19 e vacinação das crianças mais pequenas: Politic e Policy amalgamadas? Ou nem tudo o que parece é?


                                                                                                      Antonio Sousa-Uva


Muito se tem escrito e falado sobre a vacinação das crianças dos 5 aos 11 anos! E julgo que “a procissão ainda irá no adro” …

No essencial, a “avaliação de risco-benefício é favorável à vacinação” de acordo com a decisão. Restará “apenas” saber, que risco e que benefício … mas essas são “contas de outro rosário”.

A questão, agora em reflexão é, de novo, algo transversal à resposta ao “tsunami” pandémico: a possível excessiva “promiscuidade” entre as estratégias de acção em Saúde Pública (policy) e a decisão política das medidas a implementar (politic).

O patamar técnico-científico, caracterizado pelo rigor (ou pelo menos pela preocupação desse rigor), estará presente?

Também a isenção e a imparcialidade farão, com proporcionalidade, parte da equação?

Serão totalmente compatíveis os patamares da criação de conhecimento e a resposta política às populações, com crenças, ideologias e busca de compromissos?

Não seria preferível (e mesmo desejável) que as abordagens fossem separadas, ainda que a decisão política fosse sempre dominante?

Por exemplo, no Reino Unido, não são sobreponíveis os Órgãos Estatais, as Comissões de Consultoria (Advisory Committees) e as Comissões de Consultoria de Peritos (Expert Advisory Committees) e essa evolução demorou décadas a ser feita. Porque será que isso terá acontecido?

Entre nós, por exemplo, a Direcção-Geral da Saúde é, obviamente, um órgão estatal e o Conselho Nacional de Saúde Pública (CNSP) um Advisory Committee e as reuniões do Infarmed em que categoria se integram? Pretenderão ser uma reunião de um Expert Advisory Committee? Ou será, ainda que com quase dois anos, uma resposta ad hoc determinada pela emergência?

Deve-se recordar que o CNSP é parte integrante do Sistema de Vigilância em Saúde Pública, sendo o órgão consultivo do Governo no âmbito da prevenção e controlo das doenças transmissíveis, nomeadamente em epidemias. Apesar disso, e aparentemente com excepção da reunião de 11 de março de 2020 que, todos se recordarão, antecedeu a resposta à pandemia quanto às escolas, não tem reunido. Não se justificaria ser ouvido quanto à vacinação deste grupo etário?

Mais burocracia dirão alguns! Mas será então esse modelo organizativo adequado à resposta a surtos epidémicos de grande escala e pandemias? Estou um bocadinho confuso!


Nota: Publicado inicialmente na plataforma Healthnews

04 dezembro 2021

+COVID-19: covidar ou convidar para o Natal?

Antonio Sousa-Uva

  

Já não faltará muito para atingirmos os quatro dígitos de internamentos e os três dígitos nos cuidados intensivos já foram. Vem-me à memória de novo o “covidar ou convidar” a que aludi no verão de 20201.

 

Entretanto a variante Ómicron já está espalhada pelo mundo e no nosso espaço Europeu já está na maioria dos países. Coloca-se até a hipótese de que já estaria a circular no velho Continente antes da sua caracterização na África do Sul o que não parece provável. Aparentemente a sua transmissibilidade é elevada mas a gravidade da doença não parece ser e brevemente saberemos mais sobre a eficácia das actuais vacinas, em consequência das dezenas de mutações que sofreu.

 

Os indicadores de frequência da COVID-19 escalam, de novo, e hoje, dia 4 de dezembro de 2021, atingem quase seis mil casos. Mas mais preocupante é o aumento de internamentos em enfermaria e em cuidados intensivos e o número de óbitos que continua igualmente a escalar e, sabido que é o seu  “atraso” de algumas semanas em relação á incidência, deveria determinar, desde já, maiores precauções nas Festas que se aproximam.

 

Claro que a “semana-tampão” de janeiro indicia que tudo se poderá manter como está mas nada deveria anular que, sem alarmismos, se informasse a população que, para além do rappel da vacina e o reforço da testagem, investisse um pouco mais nas atitudes de prevenção que espero que sejam conhecidas de todos.

 

A nossa cultura dominante é no entanto mais centrada na “proibição” e na “coima” do que na educação e na literacia. É um bom exemplo disso a discussão da obrigatoriedade da vacina num país com, praticamente, 99% da população elegível vacinada. Quem discute isso ou sobre isso delibera não tem as nossas taxas de vacinação fará, por isso, sentido encetar essa discussão? Ou será que a cultura da proibição é indutora do seu contrário a “obrigação”?.

 

A ausência de comunicação adequada para a adopção de atitudes e comportamentos consentâneos com a situação pandémica actual, relacionar-se-á com aquilo?

 

É sobejamente conhecida a eficácia da vacina na prevenção da doença grave (e na letalidade) mas o mesmo não se pode dizer do que, na gíria, se chama “falência vacinal”. Depois do que hoje se sabe a “imunidade de grupo” parece que nunca será atingida, ainda que a partícula viral não circule da mesma maneira numa população vacinada em relação a uma não vacinada o que reforça ainda mais a necessidade da vacinação que, objectivamente e não por questões de opinião, é recomendável.

 

Não será isso suficiente para fazer um mais forte investimento nas tais “atitudes e comportamentos de grupo” com o mesmo empenho da "imunidade de grupo"?  

 

 

Referência

 

1 Sousa-Uva A. A COVID-19: convidar ou covidar? Disponível em: https://healthnews.pt/2020/07/23/a-covid-19-convidar-ou-covidar/

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