18 agosto 2021

Vacinação COVID-19: em 16 de agosto de 2021 estamos no pódio (bronze)!


 

 António Sousa-Uva

 

A vacinação da população avança a bom ritmo e já passámos, seguramente, dos três em cada quatro com algum grau de imunidade, considerando também a imunidade natural. Talvez seja influência dos Jogos Olímpicos Tóquio 2020, recentemente realizados, esta perspectiva competitiva mundial da vacinação ... que, confesso, tenho grande dificuldade em entender.

 

De facto, tendo em conta os 10% de cidadãos que já contraíram a doença, alguns dos quais com rappel vacinal adicional, não andaremos longe de quatro em cada cinco com algum grau de imunidade. Quem se referiu copiosamente à imunidade de grupo (muitas vezes sem saber o que é o sistema imune ou tendo desse sistema uma imagem semelhante à PSP ou GNR do nosso corpo) ou a denominou “imunidade de rebanho” (sem ser brasileiro) está agora talvez perplexo ou, se vier das Ciências Exactas por exemplo, poderá achar que é mais uma falta de exatidão dos médicos (e outros profissionais de saúde). Mais uma!

 

Essa perspectiva não releva muita coisa e, por exemplo, outros dados da vacinação. Não revela, por exemplo, que menos de um em três dos seres humanos recebeu uma só dose da vacina e menos de um em quatro tem a vacinação completa. Se “fatiarmos” a distribuição de seres humanos por países constata-se que só cerca de um por cento desses seres estão vacinados em países menos abonados e em alguns deles dez vezes menos do que isso como é o exemplo da Tanzânia (Our World in Data, 2021). Uma espécie de outro Kilimanjaro que é difícil de alcançar.

 

Tal não será importante numa situação pandémica?

 

O que poderá estar na eclosão de novas estirpes (ou variantes)?

 

Os vírus terão uma qualquer discriminação ao infectar um rico ou um pobre?


Haverá dois humanismos (o rico e o pobre)?

 

A vacinação dos grupos etários mais jovens e o 3º rappel (ou, eventualmente, 2º na imunização com uma aplicação) mobilizam a opinião pública e regressam os “peritos” que peroram profusamente em quase todos os canais noticiosos e nas redes sociais. Apesar da minha amostra não ter representatividade, o tema Autárquicas será talvez menos abordado que a acesa “discussão” sobre aqueles temas.

 

Tal deverá corresponder à manutenção dos receios, ainda muito elevados, do SARS-CoV-2 que a sociedade mantém “de mãos dadas” com a desejada (e muitas vezes objectivada) “libertação” dos constrangimentos impostos pela pandemia, o que poderá parecer o seu contrário (ou mesmo o oposto).

 

Apesar de muito perto, estamos bem longe do que vivíamos há cerca de um ano (Sousa-Uva, Sousa-Uva e Serranheira, 2021). Talvez não seja má ideia um olhar mais pan também sobre a vacinação.

 

Publicado, inicialmente, em Healthnews.


Bibliografia


  • Sousa-Uva M, Sousa-Uva A, Serranheira F. Prevalence of Covid-19 in health professionals and occupational psychosocial risks. Rev Bras Med do Trab. 2021;19(1):73–81. Available from: /pmc/articles/PMC8100762//
  • Our World in Data. Coronavirus (COVID-19)Vaccinations. Disponível em: https://ourworldindata.org/covid-vaccinations (consultado em 18/08/2021).

12 agosto 2021

A doença profissional COVID-19: mais uma infecção transmitida a profissionais de saúde através de gotículas do tracto respiratório


Antonio Sousa-Uva


Os fatores de risco microbiológicos foram, nos últimos cinquenta a sessenta anos, fatores de risco de natureza profissional muito pouco valorizados em profissionais de saúde tendo, no entanto, a propósito do vírus de imunodeficiência adquirida identificado há cerca de 40 anos, despertado mais a nossa atenção, e de forma muito marcada e, mais recentemente, também o risco da tuberculose multirresistente. A gravidade das doenças e o seu desfecho são, portanto, fatores determinantes na percepção desses riscos profissionais numa perspectiva comum do conceito de risco.

De facto, a exposição a fatores de risco dessa natureza na prestação de cuidados de saúde e a manipulação de produtos (micro)biológicos constituem situações de risco assinaláveis. A principal via de transmissão (transmissão por via aérea) faz-se através de gotículas provenientes das secreções respiratórias que têm tendência a sedimentar rapidamente devido ao seu peso.

O coronavírus SARS-Cov2 transmite-se através de gotículas provenientes da árvore respiratória de um indivíduo infectado quando tosse, espirra ou fala, as quais se depositam nas mucosas de um indivíduo susceptível. São essas as principais razões (agora por vezes denominadas o racional) da necessidade imperiosa de evitar a proximidade entre pessoas (distanciamento físico também denominado distanciamento social), a permanência em ambientes fechados e pouco arejados, assim como a higiene das mãos deficiente que também é muito facilitadora do contágio.

Contrariamente à gripe (existem muitas diferenças …) a vacinação não está disponível na prevenção da doença. Quando (e se) existir, naturalmente que os profissionais de saúde serão um dos grupos prioritários para essa vacinação, com o duplo objetivo de se protegerem, mas também de minimizarem a transmissão do vírus aos seus doentes.

A parotidite infeciosa (ou papeira) também causada por um outro vírus, hoje muito pouco frequente devido à vacinação (VASPR – que contém antigénios específicos do vírus do Sarampo, da Papeira e da Rubéola) era muito frequente na altura, por exemplo, do baby boom após a segunda grande guerra. E poderíamos falar também do sarampo e de outras doenças infecciosas com vias de transmissão semelhantes.

A Lista Portuguesa de Doenças Profissionais não inclui no seu capítulo quinto (Doenças Infeciosas e Parasitárias), a COVID-19 por razões óbvias, mas o seu reconhecimento como doença profissional poderá ser feito dada a natureza mista do nosso sistema de reparação de danos emergentes de doença profissional. São muitos os agentes microbiológicos que se transmitem por gotículas e incluem os vírus ou as bactérias que são responsáveis por quadros clínicos diversos, muito frequentemente envolvendo o aparelho respiratório.

Enquanto não dispusermos de vacina (ou de uma terapêutica eficaz) a tranquilização dos profissionais de saúde será uma tarefa árdua (mas indispensável) que passa, para além da mais robusta formação e informação, pelo recurso a medidas (organizacionais e outras) de gestão do risco e pelo recurso, complementarmente às medidas de protecção colectiva, aos equipamentos de proteção individual (adequados!) e à sua mais correcta utilização.

Os Serviços de Saúde Ocupacional, com profissionais competentes e com formação específica adequada e recursos igualmente adequados, são indispensáveis para que essas tarefas sejam cumpridas pelo que se torna inadiável um maior investimento na sua implementação e na sua valorização no seio das organizações (também hospitais e agrupamentos de centros de saúde). É essa a diferença entre o cumprimento de disposições normativas (custo) e a promoção e proteção da saúde de quem trabalha (investimento).




Nota: Publicado, inicialmente, em Healthnews em 28 de maio de 2020.

05 agosto 2021

+COVID-19: quase o equivalente a metade da população portuguesa de óbitos por (ou com) SARS-CoV-2!

 

António de Sousa Uva


A variante delta já é totalmente hegemónica e a sua contagiosidade já foi equiparada à da varicela. Para quem viveu com filhos pequenos a época das doenças exantemáticas (e similares) muito frequentes e/ou fez clínica numa época em que a arte era uma das suas características dominantes essa contagiosidade é, talvez, ainda melhor percepcionada.

 

A maioria dos “treinadores de bancada”, mesmo oriundos do Ensino e Investigação, foram “a banhos”, mas tal não impede uma verdadeira “floresta” de opiniões sobre a vacinação dos mais jovens que teve um determinado veredicto da comissão técnica de especialistas nesse domínio. Regressa a evocação quase diária de decisões díspares em diferentes países (e até no nosso território nacional) que fundamenta muitas daquelas posições, sendo agora a DGS o “saco de areia” e a apreciação crítica da sua acção, no bem futebolês “de bestial a besta”, quase dominante. De novo a amálgama entre a politic e a policy que tem sido a regra nesta pandemia, neste caso mesclada ainda com aspectos técnico-científicos, qual Benfica-Sporting entre o sim e o não, mesmo no seio da classe médica, segundo parece.

 

Assim reage alguma da população portuguesa à actual situação pandémica com uma intervenção minimalista dos órgãos de governo também já maioritariamente “a banhos” depositando no Vice-Almirante (e a sua equipa quase sempre no Backoffice) e na vasta equipa de vacinadores não só os louros mas, sobretudo, a necessidade de cumprimento da missão.

 

Tudo leva a crer que os pólos se situam mais em aspectos individuais nuns casos e em perspectivas de base populacional noutros que, de resto, também se observam por esse mundo fora, Uma coisa é certa, a vacinação modifica significativamente a história natural da doença em cada indivíduo e também a sua transmissibilidade.

 

Exige-se, por isso, nesta silly season uma imensa dose de paciência e o reforço da determinação em dificultar ao máximo a transmissibilidade mas, contudo, não são a paciência nem a determinação que mais se parecem respirar neste verão de 2021. A pandemia não liga bem com caipirinhas e caipiroskas … e o relaxe das principais medidas de prevenção poderá renascer com a avidez da “libertação”.

 

Entretanto, pelo sim e pelo não, o turismo interno acelera e traz esperança `na retoma das actividades económicas que “amaciem” a crise que se avizinha, bem certa se o custo do dinheiro subir num país cada vez mais endividado na resposta à pandemia. É a busca do equilíbrio entre a Saúde e a Economia a que os políticos tanto gostam de se referir.

 

Nesta actual situação e com a lembrança do último ano e meio vem-me sempre à memória a douta frase de quem se referiu a esta emergência de Saúde Pública como “uma gripezinha” … Um visionário, por certo.

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