António de Sousa Uva
A vacinação da população continua a progredir e já
estaremos com dois em cada três cidadãos com imunidade, considerando também a
imunidade natural adquirida, e três em quatro com algum grau de imunidade. A
variante delta (e a plus ou “premium”, para quem preferir) eclipsou
todas as outras e estamos a atingir o início da descida da actual onda pandémica.
Tal como estava previsto o perfil de consumo de cuidados hospitalares tem sido
bem diverso da anterior onda do período periNatal, ainda que provavelmente
atinjamos os quatro dígitos (muito magros) de internamentos e o seu aumento
ainda vá permanecer por mais algumas (escassas) semanas.
O que
concentra a atenção de todos actualmente é, essencialmente, a grelha de avaliação
de risco e a vacinação dos jovens dos 12 aos 15 anos e esta semana teremos, por
certo, novidades nesse domínio. A tal propósito existem muitas questões que
determinam alguma reflexão, entre as quais emergem muitas interrogações, como
por exemplo:
As grelhas (ou matrizes) de avaliação de
risco devem apontar tendências que ajudem a tomar decisões de gestão de risco e
as variáveis que as compõem, frequentemente, não são independentes. Não ter
isso em conta poderá dificultar a qualidade desses indicadores?
As questões de natureza ética
colocam-se, essencialmente, quando existem diversos “valores” em causa. Quais
os valores que se devem sobrepor quando essa “conflitualidade” se instala?
Os direitos, liberdades e garantias
individuais devem ser “sacrificados” em função de um qualquer objectivo
comunitário?
Qual o melhor equilíbrio entre as
questões da Economia e da Saúde?
Manter-se-á o baixo controlo fronteiriço
português? O pico turístico deste tempo quente que importância tem no controlo da
pandemia?
Entretanto,
as escolas estão em férias grandes (o que é uma boa ajuda ao actual surto
pandémico) e tudo leva a crer que até ao fim do verão a imunidade de grupo seja
atingida (qualquer que seja esse valor já que, tradicionalmente, a adesão dos
portugueses às vacinas é, há muito, das melhores do mundo). Isto num contexto
de incerteza da ocorrência de mutações que os vírus vão sofrendo (e que por
certo ainda sofrerão) e, mais objetivamente ainda, da somítica disponibilidade
de doses de vacina sempre constrangida pela regra da entrega ser,
sistematicamente, inferior ao acordado.
E o descanso (e agora as férias) dos profissionais de saúde? Não estarão já em suficiente exaustão profissional e emocional?
É bom
recordar que o burnout (profissional)
atinge, essencialmente, os trabalhadores mais dedicados ao seu trabalho e que
nele colocam as mais elevadas expectativas.
Será urgente definir estratégias
adequadas de fomento de um bom equilíbrio entre as exigências do trabalho e a
saúde (e segurança) de quem trabalha?
Ou a opção é algo semelhante ao que aconteceu
com o cavalo do inglês?
Oxalá o bom
senso (e outra sensatez) seja o denominador comum da gestão de risco e o
caminho pan-epi-en demia se faça sem sobressaltos e “populismos” desadequados à
nossa actual fase pandémica.
Estou certo
que tal acontecerá!