30 novembro 2021

+COVID-19: para além da nova variante, nada de novo portanto!

                                                                                                                             

 

                                                                                                                               Antonio Sousa-Uva


Já não faltará muito para atingirmos os trezentos milhões de casos de COVID-19, registados e comunicados. Mais uma vez, a que número real corresponderá, conhecendo a “invisibilidade” da doença de muitos dos casos e a insuficiência dos sistemas de gestão de informação em inúmeros países?

 

Julgo que poderá não se andar muito longe dos 10% da população mundial atingido pela pandemia! Mais uma vez ocorrem as lembranças de quem a ela se referiu como uma “gripezinha”, apoucando-a mas, pior ainda, apoucando igualmente a gravidade da gripe (como já anteriormente nos referimos).

 

Entretanto, como era previsível, a partícula viral vai mutando no percurso de adaptação ao hospedeiro e, naturalmente, essa adaptação ocorre à medida que circula nas comunidades. Aparece agora uma nova variante, a B.1.1.529, baptizada com a letra grega Ómicron, a 15ª letra do respectivo alfabeto, saltando por razões desconhecidas a Nu e a Xi. Não se conhece as razões dessa opção, mas não seria despiciendo que tal opção se pudesse relacionar com o facto, por exemplo, dessa última denominação ser um nome em chinês? Quanto ao Nu, estar-se-á despido de argumentos?

 

A próxima vai ser a Pi, se não se optar por mais um salto, dada a sua associação à Matemática, que muitos recordarão ainda o seu valor de 3,14 (optando apenas por duas casas decimais). Já lá vão mais de uma dezena de variantes, ainda que algumas pouco mediatizadas como foi o caso da anterior, a Mu, identificada na Colômbia.

 

Renovam-se as preocupações com a transmissibilidade e a gravidade da nova variante e o mundo já quase não dá tempo à criação de conhecimento sobre uma variante identificada há apenas duas ou três semanas! Com essa informação em falta “mete-se travão às quatro rodas”, basicamente isolando quem isolou a variante. O propalado “princípio da precaução” em Saúde Pública ou, na dúvida, uma espécie de “instinto de sobrevivência” dos modelos económicos mais abonados?

 

Para já, para já, uma criptomoeda homónima registou um tal aumento da procura que o seu valor aumentou 137% em apenas 24 horas!

 

Entretanto, em Portugal, as consequências da pandemia já se repercutem na esperança de vida baixando, em 2023, alguns meses a idade da reforma (o que se julga acontecer pela primeira vez desde que essa indexação foi feita).

 

Apesar de tudo isto, no mundo, as desigualdades de acesso à vacinação permanecem incólumes, optando-se pelo “tratamento sintomático” e não “atacando” a etiologia do fenómeno que, dessa forma, vai seguindo a respectiva história natural. Para além da nova variante, nada de novo portanto!

26 novembro 2021

+COVID-19: vacina obrigatória? Onde chegámos!

                                                                                                                 Antonio Sousa-Uva


Com alguns exemplos na Europa aparece, como de uma erupção se tratasse (qual surto exantemático …), o tema “vacina obrigatória”. Onde chegámos! Onde estarão os direitos, liberdades e garantias?

 

Vacina obrigatória? Num país que há mais de meio século tem uma adesão notável à vacinação e que tal facto é totalmente revelador de quanto se acredita na imunoterapia específica?

 

O objectivo será que os cidadãos deixem de aderir de forma maciça à vacinação?

 

Convirá recordar que praticamente 99% da população Portuguesa elegível se vacinou contra a doença causada pelo SARS-CoV-2. Tais taxas de vacinação, colocam-nos mesmo na dianteira da taxa de vacinação a nível mundial.

 

Será outra pandemia, essa do medo, que está na origem de tal movimento?


Em alguns países já tinha emergido a obrigatoriedade da vacinação para grupos específicos, como é o exemplo dos profissionais de saúde. Depressa, com um novo surto, se passa para a sua generalização à população geral. Se já discordava vincadamente com a obrigatoriedade em grupos específicos, a generalização à população geral desencadeia em mim um turbilhão de preocupações, tanto como cidadão como como médico ou, se se preferir, profissional de saúde.

 

Mas haverá alguém mais interessado na sua saúde do que o próprio? Será que a vacinação obrigatória é defendida por quem está mais preocupado com a sua saúde (em termos probabilísticos de uma emergência pandémica) do que com a saúde de quem seria “obrigado” a vacinar-se?

 

Que estranha perspectiva de Saúde Pública!

 

Não seria desejável sugerir que devemos aumentar a literacia em saúde de forma a, tendencialmente, atingirmos os 100% de aderentes à vacinação?

 

Como médico do trabalho confrontei-me, no passado, com algo semelhante. Alguns trabalhadores, numa das empresas em que trabalhei, recusavam realizar o exame periódico de Medicina do Trabalho. Fará algum sentido uma obrigação de realização desse exame?

 

Nos trabalhadores a meu cargo, apenas por razões do enquadramento legal aplicável, optei por solicitar uma declaração escrita de recusa do exame. Mesmo assim, em muito pequeno número, alguns recusaram declarar que declaravam a recusa. Optei então por  assinalar esse facto na respectiva ficha clínica, por iguais razões.

 

Sempre interpretei como incapacidade (ou falência) minha a existência de recusas em realizar o exame periódico que, para qualquer efeito, é sempre realizado para a protecção (e promoção) da saúde do trabalhador “negacionista”. Tal determinou acções concretas nesses trabalhadores que, em mais de metade dessas recusas, levaram a que fossem revertidas, com uma maior literacia sobre esses exames periódicos. Que tal escolher um caminho similar na vacinação contra a COVID-19?


NOTA: Publicado inicialmente na plataforma Healthnews.

Em destaque

+COVID-19: nova variante, novos desafios?