11 novembro 2021

+COVID-19: um “coup d’oeil” sobre a nossa Saúde


Antonio Sousa-Uva


Portugal foi, em 1948, um dos países fundadores da Organização Europeia de Cooperação Económica, criada na sequência do fim da Segunda Guerra Mundial. Mais tarde, em 1960, com os Estados Unidos e o Canadá, os dezoito estados fundadores originaram a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE) que a substituiu e que hoje abrange um bem maior número de países.


A OCDE publica, regularmente, o Health at a Glance1 com um conjunto interessante de indicadores de saúde que constitui há muito um documento de consulta obrigatória. Para quem não se recorda, na primavera e outono de 2020, muito se falou do excesso de mortalidade a propósito da COVID-19.

 

É muito interessante verificar, mais uma vez e agora de forma mais consolidada, a discrepância entre a perspectiva política e a dos estudiosos e investigadores em relação a muitas matérias e, designadamente àquele excesso de mortalidade. Apesar da muita “verborreia” sobre essa matéria, não parecem restar dúvidas que a COVID-19, directa ou indirectamente, contribuiu para um aumento de 16% do número esperado de mortes em 2020 e primeiro semestre de 20211.

 

Mais ainda, em 24 de 30 países a esperança de vida diminuiu, destacando-se os EUA (menos 1,6 anos) e a Espanha (menos 1,5 anos), já que mais de 90% dos óbitos ocorreram em maiores de 60 anos e, claro e como sempre, em populações mais vulneráveis pelas mais variadas razões.

 

Menos falado tem sido o impacto na Saúde Mental e a “COVID crónica” (ou Long COVID), esta última podendo atingir mais de um terço dos doentes.

 

No nosso caso, logo na primavera de 2020, investigámos  os aspectos das repercussões na Saúde Mental dos médicos e outros profissionais de saúde e do teletrabalho2-3. Estas matérias serão, por certo, alvo de inúmeros estudos e carecem, portanto, ainda da criação de mais (e melhor) informação.

  

O que parece certo é que a actual pandemia teve para além das consequências directas na saúde diversas repercussões indirectas, muitas delas ainda por esclarecer. Indirectamente parece óbvio o impacto na prestação de cuidados de saúde, já ilustrado pelo aumento das listas de espera cirúrgicas, restando a parte invisível de que o adiamento da precocidade dos diagnósticos (não só de cancro) é um marcante exemplo.

 

São consequências “devastadoras” do impacto de uma pequena partícula viral que vão muito para além dos mais de 250 milhões de casos “oficiais” de doença e dos 5 milhões de óbitos. O Health at a Glance 20211 já reflecte bem o início desse grave impacto na nossa saúde.

 

Referências bibliográficas

1 OECD. Health at a Glance 2021. OECD Indicators. Paris: OECD Publishing. Em linha. Disponível em: https://www.oecd-ilibrary.org/social-issues-migration-health/health-at-a-glanc e-2021_ae3016b9-en. Consultado em 16 de novembro de 2021.

2 Sousa-Uva M, Sousa-Uva A, Serranheira F. Prevalence of COVID-19 in health professionals and occupational psycosocial risks. Rev. Bras. Med. Trab. 2021;19(1):73-81. 

3 Sousa-Uva M, Sousa-Uva A, Sampayo M, Serranheira F. Telework during the COVID-19 epidemic in Portugal and determinants of job satisfaction: a cross-sectional study. BMC Public Health. 2021;21:2217 (doi: 10.1186/s12889‑021‑12295‑2).

08 novembro 2021

+COVID-19: As “sete vidas” da pandemia, já irão em cinco?

 

 António Sousa-Uva

 

Na semana de 1 a 7 de novembro de 2021 o número de casos de COVID-19 poderá chegar aos 1300! Ouvi isto no início da semana passada com base em modelos de estimativa. O que se passou? Para já: dia1: 491 casos; dia 2: 450, dia 3: 1074; dia 4: 1382; dia 5: 1298 e dia 6: 1197. É uma grande subida, que de resto se expressa, naturalmente, na taxa de incidência que se espraia nos três dígitos, “roendo os calcanhares” ao limiar de controlo pandémico! 


Será que só actuaremos quando os casos escalarem ainda mais? Ou vamos esperar pelos 240/100000, por taxas de transmissibilidade “anafadas” e maiores índices de positividade dos testes?


Já estamos, no mundo, bem próximos de um quarto de bilião de casos "oficiais" (de acordo com a definição de bilião nos EUA) e os cinco milhões de óbitos por (ou com) COVID-19, já foram! E, aparentemente, o perfil pandémico não se torna, como parecia antes previsível, em perfil endémico e as vagas não são “canhão” como as da Nazaré mas, apesar disso, o “mar não está chão”.


Entretanto a vacinação (não completa) da população mundial vai circunvizinha de metade mas, pasme-se, em África estão vacinados cerca de 6% (ou menos) dos seus habitantes, com alguns países africanos muito próximos de taxas de vacinação contíguas a 1%, enquanto os países mais abonados investem na vacinação dos mais jovens e na dose de reforço aos mais velhos!


Entretanto ainda, a nossa sociedade, praticamente, voltou à actividade do período pré-pandémico e a Economia tem o revés das quebras de produção de amplos períodos de confinamento, esgotadas que estão as existências armazenadas.


Aparentemente, a boa notícia é que não apareceu uma variante que “finte” a imunidade induzida pela vacinação que se espera que não desponte nos países (e comunidades) em que o vírus quase que circula livremente.


Contrariamente à ideia dominante, o período ainda não é pós-pandémico e o grau de incerteza ainda é muito vasto no país que ombreia com os Emirados Árabes 


Unidos o protagonismo da maior taxa de cobertura vacinal consoante a perspectiva da vacinação completa ou iniciada.


As consequências pós-pandémicas da privação da prestação de cuidados de saúde a patologias não COVID vai igualmente emergindo gradualmente com potenciais (e óbvias) consequências na morbimortalidade geral não COVID-19.


Ainda que o “cansaço pandémico” seja colossal não parece, no contexto sumariamente descrito, muito sensato hipovalorizar a actual situação que parece tudo menos uma situação susceptível de ser encarada com tranquilidade. De igual modo, tal não justifica um elevado grau de preocupação mas, por certo, determina acções mais precoces do que as, por vezes, adoptadas num passado recente.


Talvez a medida mais sensata seja continuarmos todos a manter-nos “agentes de Saúde Pública” preservando a excelente adesão à vacinação característica do nosso povo (há mesmo muitas dezenas de anos e então não sendo notícia) e o não esmorecimento das medidas de prevenção que, espero, sejam conhecidas de todos, com destaque para o distanciamento físico e a protecção respiratória nas situações que a aconselham.


Tal, claro, esperando que as estratégias de acção sejam adequadas (e atempadas) e bem integradas nas Políticas de Saúde Pública que dirijam uma boa resposta às situações perspectivadas pelo sistema de vigilância e gestão de informação sobre a pandemia.


O que parece certo é que a pandemia não é ainda passado e tal determina que todos adoptemos medidas que dificultem a propagação da partícula viral e não fiquemos satisfeitos com a pouca pressão sobre as unidades hospitalares traduzida no número de internamentos e doentes em UCI!


Nota: Publicado inicialmente em Healthnews.

 

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