08 novembro 2021

+COVID-19: As “sete vidas” da pandemia, já irão em cinco?

 

 António Sousa-Uva

 

Na semana de 1 a 7 de novembro de 2021 o número de casos de COVID-19 poderá chegar aos 1300! Ouvi isto no início da semana passada com base em modelos de estimativa. O que se passou? Para já: dia1: 491 casos; dia 2: 450, dia 3: 1074; dia 4: 1382; dia 5: 1298 e dia 6: 1197. É uma grande subida, que de resto se expressa, naturalmente, na taxa de incidência que se espraia nos três dígitos, “roendo os calcanhares” ao limiar de controlo pandémico! 


Será que só actuaremos quando os casos escalarem ainda mais? Ou vamos esperar pelos 240/100000, por taxas de transmissibilidade “anafadas” e maiores índices de positividade dos testes?


Já estamos, no mundo, bem próximos de um quarto de bilião de casos "oficiais" (de acordo com a definição de bilião nos EUA) e os cinco milhões de óbitos por (ou com) COVID-19, já foram! E, aparentemente, o perfil pandémico não se torna, como parecia antes previsível, em perfil endémico e as vagas não são “canhão” como as da Nazaré mas, apesar disso, o “mar não está chão”.


Entretanto a vacinação (não completa) da população mundial vai circunvizinha de metade mas, pasme-se, em África estão vacinados cerca de 6% (ou menos) dos seus habitantes, com alguns países africanos muito próximos de taxas de vacinação contíguas a 1%, enquanto os países mais abonados investem na vacinação dos mais jovens e na dose de reforço aos mais velhos!


Entretanto ainda, a nossa sociedade, praticamente, voltou à actividade do período pré-pandémico e a Economia tem o revés das quebras de produção de amplos períodos de confinamento, esgotadas que estão as existências armazenadas.


Aparentemente, a boa notícia é que não apareceu uma variante que “finte” a imunidade induzida pela vacinação que se espera que não desponte nos países (e comunidades) em que o vírus quase que circula livremente.


Contrariamente à ideia dominante, o período ainda não é pós-pandémico e o grau de incerteza ainda é muito vasto no país que ombreia com os Emirados Árabes 


Unidos o protagonismo da maior taxa de cobertura vacinal consoante a perspectiva da vacinação completa ou iniciada.


As consequências pós-pandémicas da privação da prestação de cuidados de saúde a patologias não COVID vai igualmente emergindo gradualmente com potenciais (e óbvias) consequências na morbimortalidade geral não COVID-19.


Ainda que o “cansaço pandémico” seja colossal não parece, no contexto sumariamente descrito, muito sensato hipovalorizar a actual situação que parece tudo menos uma situação susceptível de ser encarada com tranquilidade. De igual modo, tal não justifica um elevado grau de preocupação mas, por certo, determina acções mais precoces do que as, por vezes, adoptadas num passado recente.


Talvez a medida mais sensata seja continuarmos todos a manter-nos “agentes de Saúde Pública” preservando a excelente adesão à vacinação característica do nosso povo (há mesmo muitas dezenas de anos e então não sendo notícia) e o não esmorecimento das medidas de prevenção que, espero, sejam conhecidas de todos, com destaque para o distanciamento físico e a protecção respiratória nas situações que a aconselham.


Tal, claro, esperando que as estratégias de acção sejam adequadas (e atempadas) e bem integradas nas Políticas de Saúde Pública que dirijam uma boa resposta às situações perspectivadas pelo sistema de vigilância e gestão de informação sobre a pandemia.


O que parece certo é que a pandemia não é ainda passado e tal determina que todos adoptemos medidas que dificultem a propagação da partícula viral e não fiquemos satisfeitos com a pouca pressão sobre as unidades hospitalares traduzida no número de internamentos e doentes em UCI!


Nota: Publicado inicialmente em Healthnews.

 

15 outubro 2021

+COVID-19: continua a ser o que há!


                 

António Sousa-Uva



Em janeiro deste ano dizia, num texto aqui publicado, que costumava responder quando me perguntavam em casa do que é a sopa “é do que há”! A propósito da recente reformulação da norma COVID-19: rastreio de contactos apetece voltar a responder o mesmo … Demorou muito a revisão da norma que integra o isolamento profilático e passa a contemplar o que muitos já preconizam (e aplicam) há muito, felizmente. A prova cabal da correcção disso é a evolução favorável da curva pandémica com a aplicação dessas medidas.

 

Ou os vários países da Europa que já estipulavam critérios temporais semelhantes, até sem vacinação, estavam totalmente errados?

 

A questão, parece-me, está no conceito de gestão do risco que, claro, que não pode ser o mesmo se for apenas um destinatário ou a população de uma região ou de um país. De facto, parece que o objectivo primeiro dessa metodologia é eliminar o risco o que, mesmo nos países com estratégias “infecção zero” (minoritários), não é cem por cento eficaz como o demonstra a evolução da pandemia por exemplo na Nova Zelândia.

 

Resta-nos então o objectivo de reduzir a um nível de aceitabilidade ou de tolerabilidade do risco, que é, de resto, o objectivo de qualquer metodologia de avaliação do risco.

 

A abordagem baseada na tolerabilidade é bem ilustrada com a mobilização nacional para o “achatamento da curva” que presidiu, mesmo, à opção das políticas implementadas, por exemplo, na primeira e na segunda vaga (esta com a 3ª encavalitada). Mas o que é mais frequente na avaliação e gestão do risco, por exemplo em Saúde Ocupacional e Ambiental, é a questão da aceitabilidade do risco. Claro que os critérios serão diferentes se a avaliação for apenas clínica ou se essa mesma avaliação é do âmbito da Saúde Pública, envolvendo questões por exemplo de natureza social e política pouco valorizáveis numa mera avaliação clínica.

 

E julgo ser aí que reside a essência principal das políticas públicas de saúde. Claro que mesmo assim não há políticas certas nem políticas erradas, como é um bom exemplo as diferenças (às vezes substanciais) que existem nos critérios adoptados, por exemplo em vários países da Europa.

 

Claro que numa situação pandémica, a maioria dos países aguardam, sensatamente, os resultados da investigação e, frequentemente, as decisões adoptadas pelos que estão na linha da frente (que são muito poucos …). Alguns diriam uma espécie de fazer o totoloto ao sábado ou ao domingo.

 

Quando integrei como perito (científico) a comissão de fixação de valores limite de exposição de substâncias químicas no ambiente de trabalho na então Comunidade Económica Europeia, há mais de vinte anos, tive perfeita consciência disso já que demorámos cerca de dois anos a definir os objectivos da fixação desses limites máximos admissíveis no local de trabalho. É que, de facto, sem essa precisão (morosa, que numa pandemia não é recomendável), torna-se algo errático abordar a questão da gestão do risco. Não pretendo entrar numa reflexão muito especializada, técnica ou científica, mas essa definição é decisiva para qualquer intervenção preventiva na área da Saúde Pública.

 

As novas regras agora determinadas na revisão da referida norma, por exemplo para isolamento profilático, são disso uma boa ilustração. É que o objectivo da gestão do risco é diferente se pretendermos prevenir, por exemplo, 40, 80 ou 90%  da transmissibilidade do vírus e, para além disso, a terapêutica não pode matar o doente (aqui, a população nacional) que sem criação de riqueza não sobrevive (ou se endivida galopantemente).

 

Mas o essencial é que finalmente se mudaram os critérios em função da evolução da pandemia e não só da vacinação. Melhorámos na minha perspectiva de gestão do risco, e isso é o que mais importa.

 

É o que há!


Nota: Publicado inicialmente em Healthnews.

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