08 setembro 2021

+COVID-19: a tradicional adesão dos portugueses à vacinação

 

 Antonio Sousa-Uva


Independentemente da nossa posição relativa em matéria de taxa de vacinação a adesão à vacina contra a COVID-19 é, em Portugal e como de resto já acontecia com outras imunoterapias específicas, excepcional. As referências feitas a tal facto vão variando muito em função da forma como se olha para os números. 


Desde logo, o olhar mais frequente é feito para a totalidade da população, o que tem alguma lógica já que a referenciação a tal evocação está, quase sempre, associada ao conceito de "imunidade de grupo".


Mas, verdadeiramente, se queremos avaliar a adesão à vacinação o denominador deveria ser a população elegível e não a população total. Desde logo ficam de fora cidadãos com contra-indicação para a vacina e todos os que tenham até 11 anos de idade (inclusive). Números redondos, a população elegível será um pouco inferior a 89% da população residente em Portugal o que nos indica que com algum grau de imunidade estaremos seguramente bem instalados no percentil noventa e com a vacinação completa na "alvorada" desse percentil.


De facto teremos mais de 86% da população total com alguma imunidade já que não contabilizamos quem já teve a doença nos grupos etários não elegíveis, assim como hipovalorizamos quem perdeu a imunidade. Todavia, atrever-me-ia a dizer que estaremos muito perto dos 90% com boa imunidade e de 98% com alguma imunidade na população elegível o que faz pressupor que no final do mês de setembro apenas 1 a 3% da população elegível não tenha sido vacinada. Tal significará que 86 a 88% da população residente (legal) estará, até ao final do mês, com defesas para, pelo menos, a doença grave.


Com tal realidade não seria urgente redefinir, para efeitos de gestão de risco, as medidas de Saúde Pública a implementar em matéria de prevenção e de mitigação? 

Deverão essas medidas ser iguais para vacinados ou não vacinados?

Serão as definições de alto e baixo risco adequadas apenas com base em critérios "externos"? 


Apesar de tudo, 1 a 3% da população elegível são cerca de 100.000 a 300.000 pessoas, algumas das quais terão razões respeitáveis para não terem sido vacinadas, o que corresponderá, em valor relativo, a pouca população, mas em valor absoluto ao equivalente a alguns estádios de futebol cheios.


Claro que emerge a perspectiva autoritária (e punitiva) da obrigação e não do dever da vacinação se não na totalidade da população, pelo menos nas situações de maior risco, como são as situações de risco específico como os prestadores de cuidados por exemplo em unidades de saúde ou residências para idosos. Mas rapidamente isso estende-se a muitas outras situações e organizações, sejam elas empresariais ou de outra natureza. Já existem alguns exemplos disso em alguns países.

 

Mas, não seria preferível identificar esses cidadãos e compreender melhor as razões dessa opção?

 

Na minha experiência como médico do trabalho também há recusas à vigilância médica periódica e há quem também ache que o melhor caminho é obrigar (tal como na situação anterior, até com abordagens normativas ou legais). Na minha experiência, mais de metade das recusas, com esclarecimento especializado, são completamente revertidas.


A vacinação deverá ser um dever ou uma obrigação? 

Estaremos a pensar mais na nossa saúde do que na saúde do outro? Numa pandemia isso fará sentido, quando, por exemplo, apenas um dígito (muito) magro de residentes em África estão vacinados?

Haverá alguém mais interessado na sua saúde do que o próprio? Acho que não!


Bibliografia

  • PORDATA. População residente, média anual: total e por grupo etário. Disponível em: https://www.pordata.pt/Portugal/Popula%C3%A7%C3%A3o+residente++m%C3%A9dia+anual+total+e+por+grupo+et%C3%A1rio-10 (consultado em 07/09/2021)  

Nota: Publicado inicialmente na plataforma Healthnews.

02 setembro 2021

+COVID-19. Vacinação: tal como antes se dizia que nove em cada dez estrelas usam Lux!

 

 António Sousa-Uva


Talvez ainda seja a influência dos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020, recentemente realizados, a perspectiva competitiva mundial da vacinação. A “competição” adensa-se e do bronze passámos a prata (tal como escrevi anteriormente) e esta semana ainda (ou para a próxima) teremos o tão almejado ouro (acesa competição com os Emirados Árabes Unidos …). De facto, não tardará muito para nove em cada dez portugueses terem alguma imunidade (incluindo a imunidade natural) contra o SARS-CoV-2 tal como, nos ano de 1960, a publicidade se referia ao sabonete Lux. Ainda bem que a vida começa a não ficar fácil para a partícula viral …

 

Porque será que atingimos tão proeminente lugar?

 

Sem qualquer desprimor pelo Vice-Almirante Henrique Gouveia e Melo e a sua vasta equipa de militares e excepcionais capacidades organizativas e de Logística, com indiscutível dedicação à causa, que outras (e, talvez, principais) razões estarão na origem de tal sucesso?

 

Antes de tudo a nossa qualidade de membros da União Europeia que nos colocou numa posição privilegiada de acesso à matéria-prima. Mas se assim é, porque razão estamos melhor que os outros dois dígitos de países?

 

Talvez a responsabilidade maior  seja dos portugueses que, há muito, têm elevadas taxas de adesão à vacinação (não só para esta vacina)!

 

Com a imunoterapia específica para a COVID-19 não foi diferente e julgo mesmo que o medo potenciou essa tradicional adesão. Depois também se deve aos quatro dígitos (gordos) de diversos técnicos de saúde e outros profissionais que se dedicaram a essa missão (ultra-rotineira e tecnicamente, julgo, pouco desafiante) que merecem uma referência indiscutível e fazem parte integrante desse sucesso.

 

Também a responsabilidade pelo modelo e pela execução muito devem à Administração Central e Local e a muitas outras forças vivas da sociedade civil que criaram condições para tal execução, para não falar na capacidade portuguesa invulgar de se mobilizar em situações de crise associada à, igualmente invulgar, capacidade dos portugueses em improvisar e se adaptar a novas situações.

 

O certo, certo, é que um pequeno país como o nosso mais uma vez consegue responder de forma notável a uma ameaça com uma elevada taxa de sucesso que constitui uma excelente resposta do exaurido e “descapitalizado” Serviço Nacional de Saúde que deveria mobilizar mais recursos não só para uma maior equidade na prestação de cuidados mas ainda para melhor organizar o seu sistema de cuidados de Saúde Pública que está muito para além da acessibilidade a médicos de família, a consultas ou a medicamentos.

 

Temo, no entanto, que passada a intempérie pandémica se volte a dedicar insuficiente atenção à prevenção primária e ao modelo salutogénico e se volte a “por as fichas todas” na resposta ao modelo patogénico. Ou será que aprendemos algo e que agora vai ser diferente?


Nota: Publicado inicialmente no blog Safemed.

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